Ténis para adultos: É tarde demais para começar a jogar?

Epa, chegue mais. Sente-se aí um pouco e pegue a sua água. Vamos ter aquela conversa. Você anda a ver os jogos, a sentir a energia do court e a pensar: “Será que ainda dá? Será que eu, com esta idade, consigo aprender a jogar ténis? Não é tarde demais?”.

Essa é a primeira bola que você tem de devolver antes mesmo de comprar a raquete. É o game mental, o 0-15 antes do primeiro serviço. Deixe-me ser o seu professor agora e ser bem direto: essa ideia de “tarde demais” é o maior erro não forçado que você pode cometer.

O ténis adulto é um universo completamente diferente. Você não está a tentar ser o próximo Alcaraz. Você está aqui por outra coisa. Pelo desafio. Pela saúde. Pela “raiva” boa de acertar uma bola exatamente onde você queria. Vamos então desmontar essa dúvida, ponto por ponto, como se estivéssemos a analisar um adversário.


O “Game” Mental: Quebrando a Barreira do “Estou Velho Demais”

Antes de falarmos de top-spin ou slices, temos de falar sobre o que se passa entre as suas orelhas. Este é o primeiro adversário, e é o mais traiçoeiro. Achar que vai “fazer figura de urso” ou que “não tem idade para isto” é a desculpa perfeita para nunca começar. A verdade é que a sua idade é a sua maior vantagem, e você nem sabia.

Você não tem a pressão de um pai que quer um campeão. Você não está a tentar ganhar uma bolsa de estudo. Você tem algo que um miúdo de 15 anos não tem: paciência (pelo menos, espero que sim), maturidade para entender instruções complexas e, o mais importante, você está a fazer isto por si. Quando você entende o “porquê”, o “como” fica muito mais fácil. O ténis é um xadrez físico, e a sua experiência de vida dá-lhe uma vantagem na parte do xadrez.

O medo de parecer ridículo é real, eu sei. Você vai falhar bolas fáceis. Você vai sacar e acertar na sua própria nuca (acontece). Você vai correr para uma bola e tropeçar nos seus próprios pés. Sabe quem mais faz isso? Todos. Eu faço. Os profissionais fazem. A diferença é que o adulto iniciante acha que todos os holofotes estão sobre ele. Relaxe. Ninguém no clube está a prestar atenção, estão todos demasiado ocupados a preocuparem-se com o seu próprio backhand. Aceite o caos inicial. Ria de si mesmo. O progresso vem de se permitir ser um principiante.


A Preparação Física: Ajustando a Máquina para o Court

Vamos ser honestos: o ténis vai cobrar ao seu corpo. Não é como caminhar no parque. É um desporto de stop-and-go. É explosão, travagem, rotação e recuperação. Você não pode sair do sofá depois de 10 anos e esperar que o seu corpo responda como o de um atleta. A boa notícia é que você não precisa da condição física de um profissional, mas precisa de respeitar o seu corpo atual.

O Aquecimento: Mais Importante que o Primeiro Saque

Se eu vir você a chegar ao court, abrir um tubo de bolas e começar a bater forehands com força total sem aquecer, eu vou ter uma conversa séria consigo. Para nós, adultos, o aquecimento não é opcional; é a sua apólice de seguro. O corpo precisa de um aviso. Ele precisa de saber que vai ser solicitado. Você está a aumentar o fluxo sanguíGneo para os músculos, a lubrificar as articulações e a preparar as vias neuronais.

Esqueça aqueles alongamentos estáticos em que você fica parado a contar até 30. Isso é para o pós-jogo. Antes de jogar, você precisa de movimento dinâmico. Comece com 5 minutos de corrida leve ou saltos à corda. Depois, ative as articulações: rotações de braços (para o saque), rotações de tronco (para os groundstrokes), lunges para acordar as pernas e, o mais importante, movimentos laterais (o shuffle) para preparar as ancas e os joelhos para o impacto.

Um bom aquecimento faz duas coisas: melhora a sua performance nos primeiros 20 minutos de jogo (quando a maioria das pessoas ainda está “fria”) e reduz drasticamente o risco de lesões musculares. Pense assim: 10 minutos de aquecimento podem poupar-lhe 6 meses de fisioterapia por causa de uma rotura no gémeo. Parece-me uma troca justa, não acha?

Mobilidade vs. Força: Onde Focar?

Quando somos mais novos, temos mobilidade a mais e pouco controlo. Quando somos adultos, geralmente temos o problema oposto: falta-nos amplitude de movimento. O ténis exige rotação. Você precisa de rodar o tronco para gerar potência no forehand. Você precisa de uma boa rotação torácica e mobilidade no ombro para um saque fluido. Se você não tiver essa mobilidade, o corpo vai compensar.

E onde é que ele compensa? No cotovelo (olá, tennis elbow). Na zona lombar (olá, dor nas costas). Na anca. O seu foco como adulto não deve ser levantar pesos como um louco; deve ser em restaurar a mobilidade. Trabalhe a sua rotação de anca, a mobilidade da sua coluna torácica e a flexibilidade dos seus ombros. Pilates, yoga ou exercícios específicos de mobilidade são tão importantes quanto a sua aula de ténis.

Claro que a força é importante. O ténis é jogado com as pernas. Você precisa de pernas fortes para aguentar a posição baixa (split step), para arrancar e para travar. Mas a força sem mobilidade é uma receita para se partir. Equilibre os dois. Trabalhe a mobilidade primeiro, para “ganhar espaço” nas suas articulações, e depois reforce esses novos movimentos.

Prevenção de Lesões: O Jogo Longo

O objetivo de um jogador de ténis adulto não é ganhar o próximo torneio; é garantir que consegue jogar na próxima semana. E na próxima. E daqui a 10 anos. O jogo longo é sobre consistência, e você não pode ser consistente se estiver sempre lesionado. A prevenção é o seu melhor game plan.

Primeiro, ouça o seu corpo. Há uma diferença entre “dor de músculo trabalhado” e “dor aguda de articulação”. A primeira é o seu diploma de esforço; a segunda é um sinal vermelho. Nunca jogue com dor aguda. O “tennis elbow” (epicondilite lateral) e as lesões no ombro (manguito rotador) são comuns porque os adultos tentam compensar a falta de técnica ou rotação com a força bruta do braço.

Segundo, invista em recuperação. O que você faz depois do jogo é crucial. Alongue. Use um rolo de espuma (foam roller), especialmente nas pernas e nas costas. Hidrate-se como se a sua vida dependesse disso (porque a sua performance depende). E durma. O sono é a ferramenta de recuperação mais poderosa e subestimada que existe. Trate a sua recuperação com a mesma seriedade que trata a sua direita.


A Técnica: Porquê Adultos (Às Vezes) Aprendem Diferente

Aqui está um segredo: os adultos podem aprender a técnica mais rápido que as crianças. Como assim, professor? Sim. As crianças aprendem por imitação e repetição, o que é ótimo para a memória muscular a longo prazo. Mas os adultos aprendem por conceitos. Você entende física. Você entende o que “baixo para cima” significa. Você pode processar uma instrução como “prepare a raquete cedo e rode os ombros”.

O desafio do adulto não é entender a instrução; é fazer com que o corpo obedeça. O seu cérebro diz uma coisa, mas os seus padrões de movimento de 40 anos dizem outra. Você vai querer bater na bola como se estivesse a jogar badminton ou a matar uma mosca. A nossa missão é desconstruir esses velhos hábitos e construir novos, específicos do ténis.

A beleza do ténis adulto é que não precisamos de perfeição estética. Não estou a tentar fazer você parecer o Federer. Estou a tentar fazer você ser eficaz. Queremos golpes que sejam repetíveis, eficientes e que não causem lesões. A sua direita pode ser um pouco mais “quadrada”, o seu backhand pode ser um slice defensivo, mas se funcionar para si, é a técnica certa.

O “Feel” vs. A Teoria (Biomecânica)

Os miúdos desenvolvem o “feel” (a sensação da bola) naturalmente. Eles batem milhares de bolas sem pensar. Os adultos pensam demasiado. Você vai estar no meio de um ponto a pensar: “Ok, split step, rodar ombros, ponto de contacto à frente, terminar o golpe por cima do ombro…”. E, claro, a bola já passou há muito tempo. A teoria é importante, mas o ténis joga-se no instinto.

O meu trabalho como professor é dar-lhe a teoria (a biomecânica) de forma simples, para que possamos praticá-la em exercícios controlados (cestos de bolas). Você precisa entender porquê o top-spin faz a bola cair. Você precisa entender porquê o seu peso tem de ir para a frente. Mas depois, na hora do jogo, você tem de largar a teoria e confiar no “feel”.

É um equilíbrio delicado. Primeiro, você aprende a teoria para construir o movimento. Depois, você pratica o movimento até ele se tornar automático (memória muscular). Só aí é que o “feel” aparece. Para os adultos, este processo pode ser frustrante porque o nosso cérebro quer queimar etapas. Não dá. Confie no processo. Repetição, repetição e mais repetição consciente.

A Direita (Forehand): A Nossa “Arma” Principal

Para a maioria dos jogadores, o forehand (a direita, para um destro) é o golpe de estimação. É o golpe que usamos para atacar, para construir o ponto. É também o golpe mais “natural” de aprender. Você vai querer bater com força logo de início. Não faça isso. A potência é o último ingrediente que adicionamos.

Primeiro, queremos consistência. Queremos que você acerte 10 em 10 bolas dentro do court, mesmo que sejam lentas. Para isso, focamos em duas coisas: preparação e terminação. “Preparar cedo” significa levar a raquete para trás assim que você identifica que a bola vem para a sua direita. “Terminação” significa completar o movimento, com a raquete a acabar “a dar um cachecol” no seu ombro oposto. Se você fizer estas duas coisas, o meio (o impacto) tende a tratar de si mesmo.

O maior erro dos adultos no forehand é bater na bola “de frente”, usando só o braço. O ténis é um jogo de rotação. Você bate na bola “de lado”. O seu corpo roda (ancas e tronco) e o braço é apenas o “chicote” que transfere essa energia para a bola. Vamos trabalhar muito isto: rotação, transferência de peso para a perna da frente e uma aceleração suave.

O Calcanhar de Aquiles: O Serviço (Saque)

Se o forehand é onde os adultos se divertem, o serviço (saque) é onde eles entram em pânico. É o golpe mais complexo do ténis. É uma cadeia cinética que começa nos pés, sobe pelas pernas, roda o tronco e explode no ombro e braço, tudo enquanto se coordena o lançamento da bola (toss). É muita coisa a acontecer ao mesmo tempo.

A maioria dos iniciantes adultos odeia sacar. Eles apenas querem “meter a bola em jogo”. Mas eu vou ser chato com o seu saque. Porquê? Porque é o único golpe no ténis que depende 100% de si. Não há adversário, não há bola a vir torta. É só você e a sua técnica. Dominar o saque é o primeiro passo para controlar o jogo.

Vamos simplificar. Esqueça o saque “chapado” (flat) e potente. Vamos focar num movimento ritmado e fluido. O toss (lançamento da bola) é 80% do sucesso. Tem de ser consistente, ligeiramente à frente e dentro do court. Depois, vamos focar no movimento de “troféu” (a posição de braços antes de atacar a bola) e na pronação (o movimento do pulso que gera o spin). Um bom saque de adulto não é necessariamente rápido; é bem colocado e consistente.


O Equipamento Certo: Não é Só Estética, é Ferramenta

Você não precisa de gastar uma fortuna. Não vá comprar a raquete exata do Djokovic. Ela foi feita para ele, não para você. O equipamento para um iniciante adulto tem de ser sobre duas coisas: conforto e ajuda. Você precisa de material que o ajude a ter sucesso e que previna lesões.

A Raquete: Potência ou Controlo?

O mercado está inundado de tecnologia. Esqueça isso. Como iniciante, você precisa de uma raquete que seja “amigável”. Isso significa, geralmente, uma cabeça de raquete maior (entre 100 e 105 polegadas quadradas). Uma cabeça maior oferece uma “área de acerto” (sweet spot) mais generosa, o que significa que, mesmo que você não acerte no centro, a raquete perdoa e a bola vai para o outro lado.

Procure raquetes que sejam leves ou de peso médio (entre 270g e 290g, sem cordas). Uma raquete muito pesada vai cansar o seu braço e pode levar a lesões no ombro ou cotovelo. Uma raquete muito leve não lhe dá estabilidade. O equilíbrio também é importante: uma raquete com “cabeça pesada” (head heavy) ajuda a gerar potência mais facilmente, o que é bom para iniciantes que ainda não têm o movimento completo.

Não se preocupe em encontrar a raquete “perfeita” de imediato. A minha sugestão é: experimente. Peça raquetes de teste na sua loja local ou no seu clube. Sinta a raquete. O mais importante é que ela pareça uma extensão confortável do seu braço, e não uma ferramenta estranha. O grip (o tamanho do cabo) também é vital; um grip errado é o caminho mais curto para o tennis elbow.

As Sapatilhas: O Seu “Jogo de Pés” Começa Aqui

Se há um sítio onde eu exijo que você não poupe dinheiro, é nas sapatilhas. Não. Você. Não. Pode. Jogar. Ténis. Com. Sapatilhas. De. Corrida. Entendido? Sapatilhas de corrida (running shoes) são feitas para movimento para a frente, com muito amortecimento no calcanhar. Elas não têm qualquer suporte lateral.

O ténis é um desporto de movimento lateral. Você vai travar e mudar de direção constantemente. Se você fizer isso com sapatilhas de corrida, o seu pé vai “sair” por cima da sola, e o resultado mais provável é uma entorse grave no tornozelo. Sapatilhas de ténis são desenhadas para isto: têm solas mais duras (para o tipo de court), biqueiras reforçadas (para arrastar o pé no saque) e, acima de tudo, suporte lateral robusto para “trancar” o seu pé no sítio.

Investir num bom par de sapatilhas de ténis não é vaidade; é a sua principal ferramenta de prevenção de lesões. Além disso, elas vão dar-lhe a confiança para se mover agressivamente para as bolas, sabendo que o seu equipamento não o vai deixar ficar mal.

Cordas e Acessórios: Os Ajustes Finos

A raquete é o corpo, mas as cordas são a alma. Você compra uma raquete e acha que está pronto. Mas as cordas que vêm de fábrica são, regra geral, medíocres e perdem a tensão rapidamente. A escolha da corda e da tensão pode mudar completamente a sensação da sua raquete.

Como iniciante, mantenha-se longe dos “poliésteres” (poly). São cordas duras, feitas para profissionais que precisam de controlo e partem cordas a toda a hora. Para um adulto que está a começar, o poliéster é “veneno” para o braço, um convite direto a lesões no cotovelo. Você precisa de cordas macias: multifilamento ou tripa sintética (synthetic gut). São mais confortáveis, absorvem melhor o impacto e dão-lhe mais potência “grátis”.

Quanto à tensão, comece por baixo. Tensões mais baixas (entre 21kg e 23kg) dão-lhe mais potência e aumentam o sweet spot, tornando a raquete mais fácil de jogar. À medida que a sua técnica melhora e você começa a gerar a sua própria potência, podemos aumentar a tensão para ganhar controlo. E lembre-se: as cordas “morrem” mesmo que você não as parta. Troque as suas cordas pelo menos duas vezes por ano, mesmo que jogue pouco.


A Arena Social: O Ténis Além dos Pontos

Uma das melhores partes de começar a jogar ténis como adulto é a comunidade. Você não está apenas a aprender um desporto; está a entrar num novo círculo social. O ténis é um desporto individual, mas é praticado numa comunidade. Você vai conhecer pessoas de todas as áreas, unidas pelo mesmo desafio (e frustração) de tentar acertar numa bola amarela.

O ténis em clubes tem uma vida social vibrante. Há torneios “escada”, eventos sociais, jogos amigáveis e aquela cerveja pós-jogo onde todos analisam os seus match points perdidos. É uma forma incrível de construir uma rede de contactos e amizades, baseada num interesse saudável.

Para muitos dos meus alunos adultos, o jogo social é o objetivo principal. Eles não querem competir ao mais alto nível; eles querem ter um jogo divertido na sexta-feira à tarde, seguido de uma boa conversa. E isso é uma motivação tão válida quanto qualquer outra.

Aulas em Grupo vs. Aulas Individuais

Qual é a melhor forma de começar? Depende do seu orçamento e da sua personalidade. As aulas individuais são o “fast track”. Sou eu e você, focados a 100% nos seus erros e na sua evolução. Podemos desmontar o seu saque, fazer mil repetições de forehand e acelerar a sua curva de aprendizagem técnica de forma exponencial. É o melhor investimento se o seu objetivo é melhorar rápido.

As aulas de grupo, por outro lado, são fantásticas por outras razões. Primeiro, são mais acessíveis. Segundo, e mais importante, elas simulam um ambiente de jogo e são socialmente mais dinâmicas. Você aprende a jogar com e contra outras pessoas. Você vê os erros dos outros (e aprende com eles) e partilha as vitórias. Para muitos iniciantes, a camaradagem da aula de grupo é o que os faz voltar semana após semana, especialmente quando a frustração técnica aparece.

A minha recomendação ideal? Um misto dos dois. Use as aulas de grupo para a componente social, para a diversão e para praticar cenários de jogo. E use uma aula individual ocasional (talvez uma por mês) para fazer um “check-up” técnico, focar num problema específico (como o backhand) e garantir que não está a desenvolver maus hábitos., ao escolher uma boa raquete de tênis para iniciantes

Encontrar Parceiros: O “Matchmaking” do Ténis

Este é, por vezes, o maior desafio do ténis adulto. Você aprendeu o básico, a sua aula de grupo acabou, e agora? Para jogar, você precisa de um parceiro. E não serve um parceiro qualquer; você precisa de alguém de nível semelhante. Jogar com alguém muito melhor que você pode ser bom para aprender, mas é frustrante (para ambos). Jogar com alguém muito pior é aborrecido.

Aqui é onde o clube e a comunidade entram. Participe nos eventos “mix-in” (onde as pessoas aparecem e rodam de parceiros). Coloque o seu nome na lista de “procura de parceiros” do clube. Use aplicações de ténis (como o “Playtomic” ou similares) para encontrar jogos. Seja proativo. Pergunte às pessoas da sua aula de grupo se querem bater umas bolas no fim de semana.

Não tenha medo de jogar a pares (duplas). Para muitos adultos, o jogo de pares é, na verdade, melhor que o de singulares. É menos exigente fisicamente (você só cobre metade do court), é mais tático (depende de posicionamento e voleios) e é inerentemente social, pois você está sempre com mais 3 pessoas. É uma ótima forma de se manter no jogo.

Etiqueta e Regras: O Fair Play

O ténis tem um código de conduta. Não é snobismo (bom, às vezes é), é sobre respeito. O respeito pelo seu adversário, pelo court e pelo jogo. Você é o seu próprio árbitro na maioria dos jogos amigáveis. Isso exige um nível de honestidade brutal.

A regra de ouro é: se você não tem 100% de certeza que a bola do seu adversário foi fora, ela foi dentro. Dê sempre o benefício da dúvida ao outro jogador. Cante as bolas fora de forma clara e alta (“Fora!”). Não cante as bolas do seu adversário (a não ser que ele peça). Se o seu saque foi bom e ele não devolveu, você não precisa de dizer “15-0”. O silêncio confirma o ponto.

Coisas simples: não atravesse outro court a meio de um ponto. Espere que o ponto acabe para ir buscar a sua bola. Se a sua bola rolar para outro court, peça “Licença, bola por favor!” e espere. Cumprimente o seu adversário antes e depois do jogo. São estas pequenas regras de etiqueta que mantêm o ambiente do clube saudável e fazem com que as pessoas queiram jogar consigo.


Definindo Metas Realistas: O Seu “Ranking” Pessoal

Você não vai ser profissional. Vamos tirar já isso do caminho. O seu objetivo como adulto não é um ranking ATP. O seu objetivo tem de ser pessoal. O que é “sucesso” para si? Para alguns, é conseguir fazer um rally de 10 bolas. Para outros, é ganhar um jogo no torneio do clube. Para outros ainda, é apenas conseguir suar durante uma hora sem se lesionar.

O ténis é um jogo de objetivos a curto e longo prazo. Você precisa de ambos para se manter motivado. O seu progresso não será linear. Você vai ter semanas em que parece o Nadal, e semanas em que parece que nunca pegou numa raquete. Isso é normal. É a curva de aprendizagem do ténis.

O truque é focar-se no processo, não no resultado. Você não controla se ganha ou perde o ponto. Você só controla o que faz antes de bater na bola: o seu jogo de pés, a sua preparação, a sua decisão. Se você se focar em fazer bem as pequenas coisas, os resultados (e os pontos ganhos) acabarão por aparecer.

Jogar para Competir: Torneios Amadores

Talvez você tenha aquele “bichinho” da competição. Excelente. O ténis amador tem um circuito de torneios incrível para todas as idades e níveis. Existem torneios divididos por “classes” (Iniciados, Classe C, B, A) e por faixas etárias (+35, +40, +45, etc.).

Competir é a melhor forma de expor as suas fraquezas. Aquele forehand que funciona tão bem nos treinos? Sob pressão, no 5-5 do terceiro set, ele desaparece. O nervosismo (o “match pressure”) é um fator real. Aprender a jogar sob pressão é uma habilidade em si mesma.

Entrar num torneio é assustador no início. Você vai sentir-se um impostor. Mas é a forma mais rápida de acelerar o seu desenvolvimento. Você vai aprender mais numa derrota por 6-0 6-0 num torneio (onde você percebeu que o seu segundo saque é um alvo) do que em 10 jogos amigáveis. Se você gosta de um objetivo claro, inscreva-se num torneio daqui a 6 meses. Isso vai dar um foco incrível aos seus treinos.

Jogar pelo Exercício: O Ténis Fitness

Talvez a competição não lhe diga nada. Talvez você odeie a pressão de contar pontos. Está tudo bem. Para si, o ténis pode ser a melhor aula de “cardio” do mundo. Há um segmento crescente chamado “Cardio Tennis”, que é exatamente isso: uma aula de grupo de alta intensidade, com música, onde o objetivo não é a técnica perfeita, mas sim manter o coração a bater e queimar calorias.

Você pode usar o ténis puramente como a sua ferramenta de fitness. Bater uma hora contra a parede de bolas, fazer exercícios de cesto com um professor focados em movimento, ou simplesmente combinar um jogo onde o único objetivo é “correr por todas as bolas”.

O ténis é um treino de HIIT (Treino Intervalado de Alta Intensidade) disfarçado de diversão. Você tem picos de esforço máximo (o ponto) seguidos de recuperação curta (o tempo entre os pontos). É incrivelmente eficaz para a saúde cardiovascular, agilidade e coordenação. Se o seu objetivo é apenas “manter-se em forma” e detesta o ginásio, o ténis é o seu melhor aliado.

Jogar pela Tática: O “Xadrez” do Court

Este é o meu favorito para os jogadores adultos. As crianças ganham com força e velocidade. Os adultos ganham com inteligência. O ténis é um jogo de geometria e percentagens. É um duelo tático. Onde é que o seu adversário é mais fraco? No backhand? Então, jogue 80% das bolas para lá. Ele é lento? Jogue bolas curtas (drop shots) seguidas de lobs.

Como adulto, você pode não ter a potência para fazer winners de todo o lado, mas você pode ser mais inteligente. Você pode aprender a construir o ponto. Jogar a primeira bola com spin e profundidade, a segunda para abrir o court (ângulo) e só atacar na terceira bola, quando o adversário já está desequilibrado.

Este é o “xadrez” do ténis. É usar os seus pontos fortes contra as fraquezas do outro. É mudar a sua estratégia a meio do jogo quando a primeira não está a funcionar. Para muitos dos meus alunos mais velhos (60+), isto é o jogo todo. Eles não correm muito, mas o posicionamento deles é tão bom, e a leitura de jogo tão apurada, que eles nem precisam. Eles fazem os adversários mais novos e atléticos correrem por eles.


O Ténis vs. Outras Atividades: Onde Investir o Seu Tempo?

OK, você está convencido de que precisa de uma atividade. Mas porquê ténis? O Padel está na moda. O Golfe é o clássico do “networking”. O Crossfit promete resultados rápidos. Onde é que o ténis se encaixa? Vamos analisar o match-up.

O ténis é o “pacote completo”. É um desafio físico (cardio, força, agilidade), um desafio mental (tática, resolução de problemas sob pressão) e um desafio técnico (a biomecânica dos golpes). Poucos desportos exigem tanto de si em tantas áreas diferentes. E, por isso mesmo, a recompensa é tão grande.

A barreira à entrada no ténis é, admito, mais alta que noutros desportos. Você precisa de um court, de um parceiro de nível semelhante e de alguma paciência inicial para passar da fase de “apanha-bolas” para a fase de “jogador”. Mas uma vez que você “apanha o vício”, é um vício para a vida.

Ténis vs. Padel: A Explosão do Momento

O Padel é o “irmão mais novo” e barulhento do ténis. A grande vantagem do Padel é a curva de aprendizagem: é incrivelmente rápida. A raquete é curta (sem cordas), o court é pequeno e as paredes mantêm a bola em jogo. Em 15 minutos, uma pessoa que nunca jogou está a trocar bolas e a divertir-se. É social (joga-se sempre a 4) e muito acessível.

O ténis, em comparação, é mais frustrante no início. A técnica é mais complexa. O court é enorme. No início, você passa mais tempo a apanhar bolas do que a batê-las. O Padel dá-lhe gratificação instantânea. O ténis exige um compromisso.

Contudo, a longo prazo, muitos jogadores acham o ténis mais recompensador. O teto técnico e tático do ténis é, objetivamente, mais alto. A satisfação de acertar um winner de backhand paralelo na linha, depois de um rally de 10 trocas, é algo que o Padel raramente oferece. Além disso, o Padel é muito duro para os joelhos e tornozelos, talvez até mais que o ténis, devido às mudanças de direção constantes e curtas.

Ténis vs. Golfe: O Desafio da Consistência

O Golfe é o outro “desporto de uma vida”. Tal como o ténis, é tecnicamente muito exigente. A grande diferença é a exigência física e o adversário. No golfe, o seu único adversário é você mesmo e o campo. É um jogo de consistência mental absoluta e repetição de um único movimento (o swing).

O ténis é um desporto reativo. Você tem de reagir àquilo que o seu adversário lhe envia. É dinâmico. O golfe é estático. A bola está ali, parada, a olhar para si. Fisicamente, o golfe é uma caminhada longa (se não usar carrinho) com explosões de força rotacional. O ténis é um treino cardiovascular muito mais intenso e completo.

A escolha aqui depende da sua personalidade. Você prefere um desafio mental meditativo, de calma e perfeição (Golfe)? Ou prefere um desafio físico, reativo e combativo (Ténis)? O ténis permite-lhe “correr e libertar a frustração”. O golfe, se você se frustrar, o seu jogo só piora.

Comparativo Rápido (A Tabela)

Vamos colocar isto num scouting report simples para você ver as diferenças claras.

O Ténis vs. Padel vs. Golfe: Onde Investir o Seu “Game”

CaracterísticaTénis (O Clássico)Padel (A Nova Febre)Golfe (O Jogo Mental)
Curva de AprendizagemModerada a Alta. Apanhar o “timing” e a técnica leva tempo. A frustração inicial é real, mas a recompensa é enorme.Baixa. É o grande atrativo. Em 10 minutos você está a trocar bolas, graças às paredes e à raquete mais curta. Muito divertido, muito rápido.Muito Alta. Considerado por muitos o jogo tecnicamente mais difícil. A consistência é um desafio para toda a vida.
Exigência FísicaAlta. Exige velocidade, agilidade, resistência e força (explosões curtas). Um treino cardiovascular completo.Alta (mas diferente). Menos corrida de fundo, mais explosões muito curtas e muito agachamento. Cardio intenso e duro para os joelhos.Baixa a Moderada. A exigência é a caminhada (se não usar carrinho) e a força de rotação (o swing). É mais resistência do que cardio.
Impacto/Risco LesãoModerado a Alto. Joelhos, ombro (saque) e cotovelo (“tennis elbow”) são os pontos quentes.Alto. Muito impacto nos joelhos e tornozelos devido às mudanças rápidas de direção e saltos.Moderado. Lesões por repetição (costas, pulsos, cotovelo de golfista) são comuns devido à natureza assimétrica do swing.
Aspecto SocialAlto. Joga-se a pares ou singulares. Clubes têm forte componente social, rankings e torneios.Muito Alto. É o seu ponto forte. Joga-se sempre a pares. É mais fácil organizar um jogo e a dinâmica pós-jogo é muito forte.Alto. O “networking” no golfe é famoso. Joga-se em grupos de 4, com muito tempo para conversar durante a volta.
Custo Inicial (Equip.)Moderado. Sapatilhas (essencial), raquete e bolas.Moderado. Sapatilhas (específicas), raquete (pala) e bolas.Alto. Um conjunto de tacos (mesmo usados), sapatos, luvas e bolas é um investimento inicial significativo.
Acessibilidade/Custo (Jogo)Moderado. Precisa de alugar um court e encontrar um parceiro do mesmo nível (o que pode ser difícil).Baixo a Moderado. Mais courts a aparecerem. Como se joga a 4, o custo do court é dividido, tornando-o mais acessível.Alto. Os green fees (taxa para jogar no campo) são geralmente caros, e uma volta demora 4-5 horas.

A Verdadeira Vitória: O Prazer do Jogo

Estamos no match point da nossa conversa. Você chegou aqui com a dúvida “é tarde demais?”. Se você prestou atenção, a resposta não é apenas “não”. A resposta é “agora é a altura perfeita”. O ténis adulto é um jogo diferente. Não jogamos pela bolsa de prémios; jogamos pelo processo.

Você vai falhar. Muitos smashes fáceis vão para a rede. Você vai fazer duplas-faltas em momentos importantes. Você vai sentir os músculos que não sabia que tinha. E sabe que mais? Está tudo bem. Porque no meio disso tudo, você vai acertar um backhand na linha que vai fazer você sentir-se um profissional. Você vai ganhar um ponto num rally longo e sentir uma satisfação que poucos desportos dão.

O ténis não perdoa, é verdade, mas ele é justo. O que você investe, ele devolve. Devolve em saúde, em amigos, em clareza mental e num desafio que nunca acaba. Então, amarre bem essas sapatilhas. Pegue na raquete. A idade é apenas o número no placar antes do jogo começar. O que importa é como você joga o próximo ponto. Vejo você no court.

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