O meu filho adolescente deve focar-se em singulares ou pares?

Fala, campeão! Que bom ter você por aqui para batermos essa bola sobre o futuro do seu filho nas quadras. Essa é, sem dúvida, uma das perguntas que eu mais escuto ali na beira da quadra, enquanto os pais observam seus filhos suando a camisa no saibro ou na quadra dura. A angústia é real: o calendário é apertado, o dinheiro é contado e a energia do garoto não é infinita. Você olha para a chave do torneio e vê aquele mundo de jogos de simples, e depois olha para a chave de duplas, que muitas vezes parece um “bônus” ou uma diversão de fim de tarde. É natural ficar na dúvida sobre onde colocar as fichas.

Eu já vi muitos talentos se perderem por especialização precoce e outros tantos que estagnaram porque não souberam usar as ferramentas que as duas modalidades oferecem. A verdade é que o tênis moderno exige um atleta completo, e a decisão entre focar em simples ou duplas não é binária como um “in” ou “out”. Ela é uma construção complexa que envolve desenvolvimento físico, maturação mental e estratégia de carreira a longo prazo. Se você quer que seu filho tenha chances reais, seja visando uma bolsa universitária nos Estados Unidos ou o circuito profissional, precisamos desmontar esse quebra-cabeça peça por peça.

Vou te guiar nessa conversa como se estivéssemos sentados no clube, depois de um treino intenso, analisando as estatísticas e o comportamento do seu filho. Vamos mergulhar fundo na anatomia do jogo, na pressão mental que cada modalidade exerce e, principalmente, em como o mercado do tênis — sim, porque isso é um mercado — enxerga esses atletas. Prepare-se, porque vamos dissecar o tênis de uma forma que talvez você nunca tenha parado para pensar, saindo do óbvio e indo direto no que funciona na prática para a evolução do seu garoto.

A Anatomia do Jogo: Onde o Corpo e a Quadra se Encontram

A Exigência Física e a Cobertura de Quadra

Quando falamos de simples, estamos falando de uma maratona intercalada com tiros de velocidade. Seu filho precisa cobrir a quadra inteira, o que exige uma resistência cardiovascular absurda e uma capacidade de recuperação entre pontos que beira o sobre-humano em níveis altos. O jogo de simples é, predominantemente, um jogo de movimentação lateral. Ele vai correr de um lado para o outro na linha de base, trocando bolas cruzadas até encontrar uma brecha ou until o adversário falhar. A exigência aqui é de consistência e “motor”. Se o motor pifa no terceiro set, o jogo acaba.

Já nas duplas, a dinâmica muda drasticamente. A quadra fica “menor” para cada jogador cobrir lateralmente, mas a velocidade da bola parece dobrar. O foco físico sai da resistência de longa duração e vai para a explosão pura. O tenista precisa ter um “primeiro passo” letal para interceptar voleios e uma capacidade de reação visual muito mais aguçada. Enquanto na simples ele tem um segundo para ver a bola sair da raquete do oponente e preparar o golpe, nas duplas, com quatro pessoas na rede ou trocas de bolas rápidas, esse tempo cai pela metade.

Isso cria dois tipos de atletas diferentes, mas complementares. O jogador focado apenas em simples muitas vezes desenvolve uma movimentação fluida, mas pode ficar “lento” de reflexos quando puxado para a rede. O duplista puro, por outro lado, tem mãos rápidas e pernas explosivas, mas pode “abrir o bico” se tiver que sustentar ralis de vinte bolas no fundo de quadra sob sol forte. Para o seu filho adolescente, o ideal é usar a simples para construir o tanque de gasolina e as duplas para tunar o motor com nitro.

A Geometria e os Ângulos do Tênis

Você já parou para observar como as linhas de passe mudam quando temos quatro jogadores em quadra? No jogo de simples, a geometria é mais previsível. Trabalhamos muito com a cruzada funda para abrir a quadra e a paralela para definir o ponto. O objetivo é deslocar o adversário. É um xadrez onde você tenta empurrar o outro rei para fora do tabuleiro. Seu filho aprende a paciência tática, a construir o ponto bola a bola, usando a profundidade como sua principal arma para manter o adversário desconfortável.

Nas duplas, a geometria se torna tridimensional e muito mais agressiva. A presença do jogador na rede bloqueia as trajetórias convencionais da simples. Aquele drive cruzado seguro que seu filho usa na simples? Nas duplas, ele é interceptado e vira ponto do adversário se não for muito bem executado. Isso obriga o adolescente a desenvolver uma precisão cirúrgica. Ele precisa aprender a jogar nos pés do adversário, a usar lobs ofensivos e a encontrar ângulos curtos que, na simples, seriam arriscados demais.

Essa visão geométrica ampliada é um dos maiores presentes que as duplas dão ao jogador de simples. Quando ele volta para o jogo individual depois de uma temporada jogando pares, a quadra parece gigante e cheia de espaços vazios. Ele começa a enxergar passadas e ângulos que antes pareciam impossíveis. Ele aprende a usar a quadra inteira, não apenas o fundo, e descobre que o tênis não é apenas força bruta, mas sim encontrar o espaço vazio onde a raquete do adversário não alcança.

O Papel Crucial do Jogo de Rede

Aqui tocamos num ponto sensível para a maioria dos tenistas juvenis modernos: o medo da rede. O tênis atual, com raquetes tecnológicas e cordas de poliéster que geram muito spin, favorece o jogo de fundo. Muitos garotos passam a vida inteira sem dar um voleio decente num jogo oficial de simples. Eles ganham jogos apenas errando menos do fundo. Mas isso tem um teto. Chega uma hora que o adversário devolve tudo, e se o seu filho não souber finalizar o ponto na rede, ele vai perder.

As duplas forçam, obrigatoriamente, o desenvolvimento do voleio e do smash. Não tem como se esconder na linha de base o tempo todo. Seu filho vai ter que subir, vai ter que fechar a rede e vai levar bolada no corpo. Isso tira o medo. Ele aprende a técnica correta do split step avançado, a manter a raquete alta e a ter “mãos de seda” para voleios curtos ou firmes para voleios de definição. Essa competência técnica é inegociável para quem quer subir de nível.

Imagine seu filho em um break point decisivo numa partida de simples. Ele dá um ótimo ataque, o adversário devolve uma bola flutuante. Se ele tem a vivência das duplas, ele caminha para a frente e mata o ponto com um voleio seguro. Se ele é apenas um jogador de fundo, ele pode hesitar, deixar a bola quicar e perder a vantagem. A dupla ensina a agressividade necessária para encurtar os pontos, algo vital para a longevidade física e para o sucesso em superfícies mais rápidas.

O Fator Mental e Emocional

Solidão vs. Parceria: A Caixa Solitária

O tênis de simples é, talvez, o esporte mais solitário do mundo. Uma vez que seu filho entra na quadra, ele está sozinho. Não pode falar com você, não pode falar com o técnico (na maioria das situações), não tem ninguém para passar a bola. Se ele está num dia ruim, não tem substituição. Essa “caixa solitária” cria uma fortaleza mental incrível, ensinando responsabilidade total. Ele aprende que o sucesso e o fracasso dependem 100% dele. É uma escola de vida brutal, mas eficiente para criar caráter e resiliência.

No entanto, essa solidão pode ser tóxica para um adolescente. A pressão interna de não ter com quem dividir a frustração pode levar ao burnout ou a colapsos mentais durante a partida. É aqui que as duplas entram como um bálsamo psicológico. Ter um parceiro ao lado divide o peso do mundo. Se ele erra um saque, o parceiro está lá para dar um toque na mão e dizer “vamos para a próxima”. Isso ensina a perdoar a si mesmo mais rapidamente, uma habilidade que, ironicamente, melhora o jogo de simples.

Além disso, as duplas ensinam a lidar com a responsabilidade compartilhada. Seu filho aprende que as ações dele afetam outra pessoa. Ele não pode simplesmente desistir de um set porque está frustrado, pois estaria desrespeitando o esforço do parceiro. Essa dinâmica social adiciona uma camada de maturidade que o individualismo da simples às vezes falha em desenvolver. Ele aprende a lutar não só por si, mas pelo time, o que é um motivador poderoso.

Lidando com a Pressão do Placar

A pressão no tênis tem cheiros e sabores diferentes dependendo da modalidade. Na simples, a pressão é egocêntrica: “O que vão pensar de mim se eu perder esse jogo fácil?”. O medo do julgamento é o maior adversário. O adolescente muitas vezes trava o braço porque o ego está em jogo. Aprender a gerenciar esse medo sozinho é fundamental, e não existe atalho: ele precisa passar por essas situações de “aperto” na simples repetidas vezes para calejá-la.

Nas duplas, a pressão é sociocêntrica: “Não posso afundar meu parceiro”. Imagine um tie-break no terceiro set de uma final de duplas. Seu filho vai sacar. A responsabilidade de não cometer uma dupla falta é imensa, porque o erro dele custa o torneio para o amigo também. Essa pressão, curiosamente, costuma ajudar jogadores mais tímidos a se soltarem, pois eles focam na tarefa de ajudar o outro em vez de ficarem presos nos seus próprios pensamentos.

Essa alternância de tipos de pressão é saudável. Um jogador que só joga simples pode ficar muito neurótico e autocrítico. Um jogador que só joga duplas pode ter dificuldade em assumir a responsabilidade final quando as coisas apertam. O ideal é que seu filho vivencie os dois mundos. A leveza que ele traz das duplas pode ajudá-lo a jogar mais solto nas simples, e a casca grossa que ele cria nas simples o torna o “rocha” que o parceiro de duplas precisa nos momentos decisivos.

Comunicação e Liderança em Quadra

Você já viu um jogo de simples onde o garoto começa a falar sozinho, brigar com a raquete e olhar para o céu? Isso é falha de comunicação interna. Na simples, o diálogo é interno e, muitas vezes, destrutivo. Nas duplas, a comunicação precisa ser externa, clara e estratégica. Eles precisam combinar onde vão sacar, quem vai cobrir o lob, quem vai cruzar na rede. É um exercício constante de verbalização e estratégia em tempo real.

Essa necessidade de comunicar força o desenvolvimento de habilidades de liderança. Se o parceiro do seu filho está nervoso, seu filho precisa assumir o papel de líder, acalmá-lo e chamar as jogadas. Ou, se seu filho é o mais inexperiente, ele aprende a humildade de ouvir e seguir instruções táticas. Essas são “soft skills” que os treinadores universitários americanos valorizam imensamente. Eles não querem apenas um robô que bate na bola; eles querem alguém que saiba interagir e elevar o nível dos companheiros de time.

A transferência para a simples é sutil, mas poderosa. O jogador que aprende a se comunicar bem em duplas começa a organizar melhor seus pensamentos em simples. Aquele diálogo interno caótico começa a ficar mais estruturado, mais tático. Ele começa a “conversar” com o jogo em vez de brigar com ele. Ele aprende a analisar o adversário de forma mais fria, como se estivesse discutindo a estratégia com um parceiro invisível.

A Transferência Técnica: Como Uma Alimenta a Outra

Como as Duplas Melhoram o Voleio e Reflexo

Vamos ser práticos e técnicos aqui. O grande problema do juvenil hoje é o “swing volley” excessivo e a falta de um voleio bloqueado clássico. Na simples, ele tem tempo para preparar o golpe. Nas duplas, com quatro pessoas em quadra, a bola volta muito rápido. Se ele fizer um movimento amplo na rede, ele fura a bola ou isola na tela. As duplas obrigam a compactar os movimentos. Ele aprende a usar a força do adversário contra ele mesmo, apenas bloqueando a bola.

Isso melhora drasticamente o tempo de reação. Os olhos do seu filho começam a se acostumar com uma velocidade de jogo superior. Quando ele volta para a simples, a bola do adversário, que antes parecia um foguete, agora parece estar em câmera lenta. Ele ganha frações de segundo preciosas para se posicionar. É como treinar com pesos nos tornozelos e depois tirá-los; você se sente voando, ao escolher uma raquete de tenis para inciantes

Além disso, o “poaching” (aquela cruzada de rede para interceptar a bola) ensina a leitura corporal. Para ser um bom duplista, ele precisa ler os ombros e o lançamento da bola do adversário para antecipar onde vai o tiro. Essa leitura antecipada é ouro puro na simples. Ele começa a saber onde o adversário vai jogar antes mesmo de a bola ser batida, melhorando sua defesa e contra-ataque.

Como as Simples Melhoram a Consistência e Fundo

Não se engane, as duplas não salvam um jogador que não tem base. Se seu filho não consegue trocar dez bolas seguidas sem errar, ele não vai conseguir jogar bem nem simples nem duplas. A simples é a “academia” dos golpes de fundo. É ali que ele repete o forehand e o backhand milhares de vezes, construindo a memória muscular e a consistência necessária para competir. É na simples que se desenvolve a “caixa de ferramentas” básica.

A profundidade de bola, crucial nas duplas para manter os adversários longe da rede, é treinada na simples. Um jogador de duplas que não joga simples tende a ter golpes curtos e sem peso, fáceis de serem atacados. A “trituração” do jogo de simples ensina a gerar peso na bola, a usar o spin para empurrar o adversário para trás. Sem essa base sólida construída nas batalhas solitárias, o duplista vira um alvo fácil.

Portanto, a simples atua como o alicerce técnico. É o momento de polir a técnica, de ajustar a empunhadura, de melhorar a biomecânica do saque. Nas duplas, o jogo é tão rápido que dificilmente você consegue corrigir um detalhe técnico no meio da partida. Na simples, você tem mais volume de jogo e repetição para consolidar essas mudanças.

A Importância do Saque e Devolução em Ambos

Aqui está o divisor de águas: saque e devolução. São os dois golpes mais importantes do tênis, ponto final. Nas duplas, eles são ainda mais críticos. Se você saca mal na simples, pode tentar recuperar o ponto na troca de bola. Nas duplas, um segundo saque fraco é “caixão” – o parceiro do recebedor vai matar a bola na rede. Isso coloca uma pressão saudável no seu filho para desenvolver um saque confiável e variado (slice, kick, chapado).

A devolução de saque nas duplas também exige mais precisão. Ele não pode simplesmente devolver no meio da quadra. Ele tem que devolver na cruzada, longe do homem da rede, ou arriscar uma paralela. Isso refina a mira. Quando ele leva essa precisão para a simples, ele para de devolver a bola no centro e começa a colocar o sacador em dificuldade logo na primeira bola.

O conceito de “primeira bola” é fundamental. O tênis estatístico mostra que a maioria dos pontos acaba em menos de 4 trocas de bola. As duplas são a essência do “tênis de primeira bola” (saque + 1 ou devolução + 1). Focar nisso vai tornar seu filho um jogador muito mais perigoso e moderno, capaz de dominar os pontos desde o início, em vez de ficar passivamente esperando o erro do outro.

O Caminho para o College Tennis e Profissionalismo

O Que os Treinadores Universitários Buscam

Se o plano A ou B envolve uma bolsa em uma universidade americana, escute bem: os treinadores amam jogadores de duplas. O ponto de duplas na faculdade vale muito. Muitas vezes, o confronto entre duas universidades é decidido ali. Um jogador que é top 50 no seu país em simples, mas que não sabe volear ou jogar em equipe, é menos valioso do que um top 100 que é um excelente duplista e joga bem simples.

Os “coaches” buscam versatilidade. Eles têm elencos limitados e precisam de peças que se encaixem em várias posições. Se seu filho for um especialista em simples que “se vira” nas duplas, ele pode perder a vaga para alguém que domina a rede. Além disso, a atmosfera do College Tennis é barulhenta, vibrante e coletiva. O perfil psicológico de quem joga bem duplas se encaixa perfeitamente na cultura dos times universitários.

Ter resultados expressivos em duplas no currículo mostra que o atleta é “coachable” (treinável), sabe trabalhar em equipe e lida bem com a dinâmica de grupo. Para um treinador que está investindo milhares de dólares numa bolsa, isso reduz o risco de trazer um “lobo solitário” que pode criar problemas no vestiário.

Rankings e Exposição

Historicamente, o ranking de simples é o cartão de visitas. É ele que define a entrada nos torneios principais. Se seu filho quer ser profissional, ele precisa ter ranking de simples. Ponto. Não dá para negligenciar isso. Os agentes, patrocinadores e a federação olham primeiro para o ranking de simples. É a moeda forte do mercado.

No entanto, as duplas oferecem uma “porta dos fundos” interessante. Muitas vezes, seu filho pode não entrar na chave principal de simples de um torneio grande, mas entra na de duplas. Isso o mantém no ambiente do torneio, treinando com os melhores, vivenciando a estrutura e, quem sabe, pontuando. Esses pontos de duplas podem ajudar no ranking combinado em alguns circuitos juvenis (ITF), melhorando a posição geral dele.

Além disso, ir bem nas duplas mantém a motivação alta. Perder na primeira rodada de simples e ir para casa é desanimador. Continuar no torneio jogando duplas, ganhando troféus e subindo no pódio mantém a chama competitiva acesa. Isso ajuda a justificar o investimento da viagem e dá ao garoto a sensação de “pertencimento” ao grupo dos vencedores.

A Realidade do Circuito Profissional

Vamos falar a real sobre o pro tour. É uma selva. Apenas os top 100 do mundo ganham dinheiro de verdade em simples. O funil é estreitíssimo. Porém, temos inúmeros exemplos de tenistas que começaram tentando simples, viram que o teto era top 200 ou 300, e migraram para as duplas, construindo carreiras milionárias e longevas. Pense nos brasileiros como Marcelo Melo, Bruno Soares, ou os especialistas em duplas da ATP.

Eles não “nasceram” duplistas. Eles eram bons simplistas que tinham ótimos fundamentos de rede e saque. Se seu filho focar apenas em simples e negligenciar as habilidades de duplas agora, ele fecha essa porta de carreira no futuro. Ele precisa desenvolver as ferramentas de duplas hoje para ter essa opção de carreira amanhã, caso a carreira de simplista não decole como esperado.

A transição de simples para duplas é mais fácil do que o contrário. Mas ela só acontece com sucesso se a base técnica (voleio, smash, leitura de jogo) foi construída na adolescência. Portanto, jogar duplas agora é um seguro de carreira para o futuro. É garantir que ele tenha um “plano B” que ainda é extremamente prestigioso e lucrativo dentro do esporte que ele ama.

Planejamento de Carreira e Longevidade

Prevenção de Lesões e Desgaste

O corpo tem um limite de “quilometragem”. O tênis de simples em quadra dura é brutal para os quadris, joelhos e costas. A quantidade de frenagens bruscas e mudanças de direção cobra um preço alto. Ao alternar com duplas, você reduz a carga mecânica total sobre o esqueleto do seu filho, mantendo a intensidade competitiva. É uma forma de “descanso ativo”.

Muitos pais acham que jogar simples e duplas no mesmo torneio é cansativo demais. Pode ser no curto prazo, naquele fim de semana específico. Mas a longo prazo, o treino de duplas é menos taxativo para o corpo do que o treino de simples. Ele permite que o atleta continue tocando na bola, competindo, mas sem a exigência de correr 8km por partida. Isso ajuda na longevidade da carreira juvenil, evitando lesões por overuse (uso excessivo).

Além disso, jogar duplas ensina a economia de movimentos. O jogador aprende a se posicionar melhor para não ter que correr tanto. Essa inteligência de posicionamento, quando levada para a simples, ajuda o atleta a jogar de forma mais eficiente, poupando energia para os momentos que realmente importam.

O Aspecto Social e Networking

Não podemos esquecer que seu filho é um adolescente. O aspecto social é vital para que ele não largue o esporte. A vida de tenista pode ser muito isolada, viajando de hotel em hotel sem amigos. As duplas criam laços de amizade profundos. Aquele parceiro de duplas vira o companheiro de quarto, o amigo para o jantar, o parceiro de aquecimento. Isso torna a viagem mais divertida e menos pesada.

Esse networking é valioso para o futuro. O parceiro de duplas de hoje pode ser o contato para uma bolsa universitária amanhã, ou o futuro sócio em um negócio ligado ao esporte. O mundo do tênis é pequeno e as relações construídas dentro da quadra de duplas costumam ser duradouras. Isolar seu filho apenas na simples é privá-lo da parte mais rica da cultura do tênis: a comunidade.

Se ele está se divertindo, ele joga melhor. É uma equação simples. As duplas trazem o sorriso de volta para o rosto de muitos garotos que estão saturados da pressão das simples. E um atleta feliz e motivado treina com mais vontade e compete com mais garra. Não subestime o poder da diversão no alto rendimento.

Tomando a Decisão Final

Então, qual é o veredito? O foco deve ser híbrido, mas com prioridades claras dependendo da fase. Até os 14-15 anos, a prioridade deve ser o desenvolvimento técnico global, e isso significa jogar ambas as modalidades sempre que possível. O volume de jogo é rei nessa fase. Ele precisa competir, precisa viver situações de match-play.

A partir dos 16-17 anos, se o objetivo for o College, mantenha as duplas firmes no calendário. Se o objetivo for o profissionalismo direto (o que é muito difícil), o foco em simples deve ser predominante nos treinos físicos e táticos, mas as duplas devem continuar presentes nos torneios como forma de afiar o jogo de rede e saque. Não especialize seu filho em “apenas simples” ou “apenas duplas” antes da hora. Deixe que os resultados e a aptidão natural dele mostrem o caminho.

Seja o estrategista da carreira dele, mas ouça o que ele diz. Se ele odeia duplas, não force, mas mostre os benefícios. Se ele ama duplas e odeia simples, entenda que talvez o perfil dele seja mais coletivo e isso pode ser um grande trunfo no futuro. O importante é manter as portas abertas e a raquete na mão.

Comparativo de Foco para o Atleta Juvenil

CaracterísticaFoco Exclusivo em SimplesFoco Exclusivo em DuplasAbordagem Híbrida (Recomendada)
Desenvolvimento FísicoAlta resistência, mas risco maior de lesões por desgaste.Ótima explosão, mas pode faltar resistência de base.Equilíbrio ideal entre “fundo” aeróbico e velocidade de reação.
Habilidades TécnicasConsistência de fundo e paciência. Voleio costuma ser deficiente.Voleios e reflexos de elite. Fundo de quadra pode ficar instável.Jogo completo: fundo sólido com capacidade de definição na rede.
Aspecto MentalResiliência individual, foco interno. Risco de solidão/burnout.Trabalho em equipe, comunicação. Menor pressão individual.Mentalidade adaptável: sabe sofrer sozinho e liderar em grupo.
Apelo para CollegeBom, mas limitado se o ranking não for estelar.Específico, procurado por times que precisam pontuar nas duplas.Altíssimo. O “pacote completo” que todo treinador sonha.
Carreira ProfissionalO caminho padrão, mas extremamente concorrido.Uma excelente alternativa de carreira, muitas vezes mais longeva.Permite testar o circuito de simples com o “seguro” das duplas.

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