Com que frequência devo mudar as cordas da raquete de um iniciante?

Fala, meu aluno! Tudo certo por aí?

Hoje nós vamos ter uma conversa séria, daquelas que a gente tem no banco da quadra enquanto troca de lado. Eu vejo você evoluindo, acertando aquele forehand com mais gosto, começando a entender o tempo de bola, e isso é fantástico. Mas tem um detalhe, uma peça fundamental nessa engrenagem que é o seu tênis, que eu sinto que você (e a grande maioria dos iniciantes) acaba negligenciando. Estou falando do motor da sua raquete: as cordas. É muito comum o pessoal gastar uma nota preta na raquete do ídolo, comprar o tênis mais caro, mas deixar a mesma corda lá por seis meses, um ano, até ela arrebentar sozinha.

A grande questão que eu quero trazer para você hoje é que a corda de tênis não é um item binário. Ela não funciona no modo “está boa” ou “está quebrada”. Existe uma vida útil de performance e saúde que acaba muito antes de o filamento se partir fisicamente. E por que eu, como seu professor, me importo tanto com isso? Porque uma corda ruim pode atrasar o seu aprendizado técnico em meses e, no pior cenário, te mandar para a fisioterapia com uma lesão no cotovelo.

Então, encosta a raquete aí, pega sua água e presta atenção. Vamos desmistificar essa história de “quando devo trocar as cordas” de uma vez por todas, sem “tecnês” complicado, mas com a profundidade que o seu jogo merece. Você precisa entender que a raquete é uma extensão do seu braço, e as cordas são o que fazem o contato real com a bola. Se elas não estiverem respondendo, você vai estar lutando contra o seu próprio equipamento.

A Matemática da Troca: Superando a Regra Antiga

Existe uma lenda urbana nos clubes de tênis que você já deve ter ouvido. O pessoal mais antigo adora repetir: “Você deve trocar as cordas por ano o mesmo número de vezes que joga por semana”. Ou seja, se você joga duas vezes por semana, trocaria a cada seis meses. Se joga três vezes, a cada quatro meses. Essa regra funcionava muito bem na década de 80 e 90, quando a maioria das pessoas usava tripa natural ou nylons muito básicos que perdiam as propriedades de forma linear. Era uma conta de padaria que ajudava a manter uma rotina, mas o tênis mudou, os materiais mudaram e a física do esporte ficou mais agressiva.

Para o iniciante de hoje, essa regra pode ser uma armadilha perigosa. Imagine que você joga apenas uma vez por semana. Pela regra antiga, você trocaria a corda uma vez por ano. O problema é que as cordas modernas, especialmente se você já estiver usando algo mais sintético, perdem a elasticidade muito antes disso. Uma corda instalada na raquete está sob tensão constante, geralmente entre 50 a 60 libras. Mesmo que você não bata numa bola sequer, essa corda está sofrendo um processo de relaxamento molecular chamado perda de tensão estática. Depois de três ou quatro meses, mesmo parada na raqueteira, aquela corda já não tem mais a “vida” que tinha quando saiu da máquina. Ela virou um arame frouxo.

Portanto, minha recomendação para você, que está começando a levar o esporte a sério, é esquecer o calendário anual e focar em trimestres ou horas de quadra. Se você joga duas vezes por semana, estamos falando de cerca de 8 a 10 horas mensais. Em três meses, você tem 30 horas de uso. Para um iniciante, 30 a 40 horas é o limite máximo aceitável para manter a integridade do material. Passou de três meses com a mesma corda? Troque. Não importa se ela parece nova. O custo de um encordoamento novo é muito menor do que o custo de desenvolver um vício técnico ou tratar uma tendinite.

A diferença crucial entre “quebrar” e “morrer”

Esse é o conceito mais difícil para o aluno iniciante aceitar, porque visualmente a raquete parece intacta. Mas no tênis, a “morte” da corda acontece muito antes da “quebra”. Quando dizemos que uma corda morreu, significa que ela perdeu a sua capacidade elástica. Pense na corda como um elástico de dinheiro. Quando ele é novo, você estica e ele volta com força, rápido. Se você deixar esse elástico esticado numa gaveta por um ano, quando for usar, ele vai estar frouxo, sem retorno de energia. Ele não quebrou, mas ele não serve mais para a função de elástico.

No momento do impacto com a bola de tênis, as cordas precisam se deformar para “abraçar” a bola e depois retornar à posição original violentamente, devolvendo a energia e gerando o spin (efeito). Quando a corda morre, ela perde essa resiliência. Ela se deforma e não volta a tempo. O resultado é que a bola sai da sua raquete sem peso, sem controle e você precisa fazer o dobro de força com o braço para a bola passar da rede. Você começa a sentir que a raquete está “oca”.

Para um iniciante, isso é terrível. Você ainda está desenvolvendo a sua mecânica de golpes. Você precisa de um equipamento que te ajude, que perdoe os seus erros fora do centro da raquete (o tal do sweet spot). Uma corda morta não perdoa nada. Ela transmite todo o choque da batida para a sua mão, pulso e cotovelo. Então, se você sente que precisa marretar a bola para ela andar, ou se seus golpes que antes entravam agora estão flutuando para fora, grande chance de sua corda ter morrido, mesmo que ela esteja lá, inteira, olhando para você.

O fator tempo e clima: A corda parada também envelhece

Outra coisa que eu vejo muito aluno fazer é deixar a raqueteira no porta-malas do carro. Escuta o que eu vou te dizer: isso é crime inafiançável no mundo do tênis! As cordas são feitas de polímeros, plásticos complexos sensíveis à temperatura. O calor excessivo faz as moléculas da corda se expandirem e relaxarem. Se você deixa a raquete no carro num dia de sol, onde a temperatura interna pode passar dos 50 graus, você basicamente cozinhou a tensão da sua corda. Ela vai ficar “mushy” (mole, sem resposta) permanentemente.

O frio extremo também é prejudicial, deixando a corda quebradiça e rígida, mas no nosso clima tropical, o calor e a umidade são os grandes vilões. A umidade é particularmente cruel com alguns tipos de tripa sintética e multifilamentos, que podem absorver água microscópica e inchar, perdendo a vivacidade. Portanto, o armazenamento é parte da manutenção. Sua raquete deve ficar em temperatura ambiente, longe da luz direta do sol quando não estiver em uso.

Isso significa que a frequência de troca também depende de como você cuida do equipamento. Se você é cuidadoso, a corda dura os três meses que conversamos. Se você é descuidado e expõe a raquete a variações térmicas brutais, talvez em um mês aquela corda já não sirva mais. Cuide da sua raquete como se fosse um instrumento musical, porque no fundo, ela é. A tensão das cordas é a afinação do seu instrumento. Você não tocaria violão desafinado, então não jogue tênis com a corda frouxa.

Sinais Sensoriais: O Que Seus Olhos e Ouvidos Dizem

Você não precisa de um equipamento de laboratório para saber a hora de trocar. Sua raquete dá sinais claros, ela conversa com você. O primeiro sinal, e o mais fácil de identificar para quem está começando, é o visual. Olhe para o centro da sua raquete, onde as cordas verticais e horizontais se cruzam. Você vê que elas estão começando a fazer pequenos dentes umas nas outras? Isso se chama “notching”.

O notching acontece porque, a cada batida, as cordas esfregam umas nas outras. Com o tempo, a corda mais dura começa a serrar a outra. Quando esses dentes ficam muito profundos, as cordas travam. Elas param de deslizar. E o deslize (o famoso snapback) é essencial para gerar o topspin, aquele efeito que faz a bola cair na quadra. Se você olhar para a sua raquete e as cordas estiverem travadas, mordidas e tortas, e você tiver que ficar arrumando elas com o dedo a cada ponto, acabou. A vida útil já foi. Troque imediatamente.

Outro sinal visual, específico para quem usa multifilamentos (aquelas cordas que parecem ter várias fibras juntas, que desfiam), é justamente o desfiado. A corda começa a parecer um casaco de lã velho, cheio de fiapos. Isso é um sinal de que a camada protetora externa se desgastou e o núcleo está exposto. Embora alguns jogadores gostem de levar isso até o limite, quando o desfiado é excessivo a tensão já caiu drasticamente. É o aviso prévio de que a corda vai estourar no meio do seu melhor ponto.

A mudança acústica: Do “Ping” para o “Thud”

O som é um indicador subestimado. Lembra quando você pega a raquete recém-encordoada? Você bate na bola e ouve um som limpo, um “PING” metálico e agudo. Esse é o som da tensão correta e da resiliência do material. É um som de “quero jogo”. Conforme as semanas passam, preste atenção. Esse som vai mudando.

Quando a corda morre, o som agudo desaparece e dá lugar a um som surdo, um “THUD” ou “POC”. Parece que você está batendo com um pedaço de papelão molhado. Esse som abafado indica que a corda não está mais vibrando na frequência correta, ela perdeu a capacidade de retornar energia. Para o jogador profissional, essa mudança de som é insuportável, eles trocam de raquete na hora.

Você, como iniciante, precisa treinar o seu ouvido. Na próxima aula, pegue a minha raquete ou a de um colega que acabou de encordoar e bata algumas bolas. Depois pegue a sua. Se a diferença sonora for gritante, é porque o seu equipamento já passou do ponto. O som não é apenas estético, ele é feedback. O som limpo ajuda o seu cérebro a registrar que você acertou o centro da raquete. O som surdo te deixa confuso sobre a qualidade do seu contato com a bola.

O Efeito Trampolim: Quando a bola começa a voar sem controle

Esse é o sinal que mais frustra o aluno. Você está fazendo o movimento certinho, terminando o golpe lá em cima no ombro, flexionando os joelhos, mas a bola insiste em sair dois metros para fora da quadra. Você começa a encurtar o braço, ficar com medo de bater, achando que perdeu a mão. Calma! A culpa provavelmente é do “efeito trampolim”.

Quando a corda perde tensão, ela vira uma cama elástica frouxa. Em vez de segurar a bola e cuspi-la com controle, ela lança a bola com um ângulo de saída muito alto e imprevisível. Você perde a precisão direcional e a profundidade controlada. A bola voa. E o pior: voa sem peso.

Para um iniciante, o controle é tudo. Você precisa confiar que, se fizer o movimento certo, a bola vai entrar. Se o seu equipamento está jogando a bola na tela de fundo aleatoriamente, você perde a confiança no seu swing. Se você sente que de repente suas bolas estão longas demais sem você ter colocado força extra, não tente consertar sua técnica mudando a empunhadura ou o movimento. A primeira verificação deve ser o equipamento. Troque a corda e veja a mágica do controle voltar instantaneamente.

O Perigo Invisível: O Impacto no Braço e na Técnica

Agora vamos falar de saúde. O tênis é um esporte de repetição e impacto. A cada batida, uma onda de choque viaja da raquete para o seu punho, sobe pelo antebraço e chega ao cotovelo e ombro. O trabalho da corda, além de bater na bola, é filtrar esse choque. Uma corda nova e elástica absorve grande parte dessa vibração ruim, ao escolher uma raquete de tenis para inciantes

Uma corda velha e rígida (morta) perde essa capacidade de filtro. Ela deixa passar toda a vibração “dura” para os seus tendões. É aqui que nasce o temido Tennis Elbow (epicondilite lateral). Eu já vi inúmeros alunos iniciantes desenvolverem dores crônicas não porque a técnica era ruim, mas porque insistiram em jogar seis meses com uma corda de poliéster morta. O custo de um encordoamento é R$ 80,00 a R$ 150,00. O custo de uma sessão de fisioterapia é quase isso, e você vai precisar de muitas.

A proteção do seu corpo deve ser prioridade. Como iniciante, seus músculos e tendões ainda não estão calejados e adaptados às cargas do tênis. Você é a pessoa mais vulnerável em quadra. Por isso, manter a corda fresca e macia não é luxo, é equipamento de proteção individual (EPI). Não espere sentir a fisgada no cotovelo para trocar a corda. Quando a dor aparece, o dano já foi feito. A prevenção é a troca regular.

Compensação técnica: Criando vícios por culpa do equipamento

Além da lesão física, existe a “lesão técnica”. O nosso corpo é uma máquina inteligente de adaptação. Se a raquete não está soltando a bola (porque a corda está morta), seu cérebro inconscientemente manda o comando: “faça mais força”. Você começa a tencionar o ombro, a apertar o cabo da raquete com força excessiva, a usar o punho de forma desnecessária para gerar a potência que a corda não está dando.

Esses ajustes viram vícios. Depois de alguns meses jogando assim, mesmo que eu te dê uma raquete perfeita, você vai continuar batendo tenso e travado, porque seu sistema motor gravou aquele padrão. Desfazer um vício técnico é dez vezes mais difícil do que aprender o movimento certo do zero.

Manter as cordas em dia garante que você possa relaxar o braço. O princípio do tênis moderno é a soltura, a aceleração fluida, não a força bruta. Com uma corda boa, você sente que a bola anda com facilidade. Isso te encoraja a bater com a técnica correta, usando a rotação do tronco e não a força do bíceps. Você aprende mais rápido quando o seu equipamento colabora com o método de ensino.

A psicologia do erro: Quando você culpa o golpe, mas é a raquete

O tênis é um esporte mentalmente brutal. A gente erra muito. Aprender a lidar com o erro é parte do processo. Mas existe o “erro bom” (tentou a coisa certa, executou quase bem) e o “erro inexplicável”. Cordas ruins aumentam a taxa de erros inexplicáveis. E isso destrói a confiança do aluno.

Você começa a duvidar de si mesmo. “Poxa, o professor falou para fazer assim, eu fiz e a bola foi na lua”. Essa dúvida faz você hesitar na próxima bola. E no tênis, quem hesita, erra. Saber que seu equipamento está em ordem te dá uma paz de espírito fundamental: “Se a bola saiu, a culpa foi minha”. Isso é empoderador, porque se a culpa é sua, você pode corrigir. Se a culpa é da raquete aleatória, você não tem controle sobre o resultado.

Eu quero que você entre em quadra com a certeza de que sua “arma” está calibrada. Isso tira uma variável da equação complexa que é jogar tênis. Sobra apenas você, a bola e o adversário. Essa clareza mental acelera sua evolução tática e técnica.

O Universo dos Materiais: O Que Colocar na Sua Raquete?

Para fechar nosso papo, preciso te dar um norte sobre o que colocar. Não adianta trocar a corda com frequência se você estiver usando o material errado. O mercado hoje empurra as cordas de co-polímero (poliéster) porque é o que o Nadal, o Djokovic e o Alcaraz usam. Mas você não é o Alcaraz (ainda!).

O poliéster é uma corda dura, rígida, focada em controle extremo e spin para quem tem um braço biônico e troca a raquete a cada 9 games (sim, profissionais trocam de raquete com bolas novas). Para você, iniciante, o poliéster é duro demais. Ele morre rápido e machuca o braço. Evite monofilamentos duros no seu primeiro e segundo ano de tênis, a não ser que você tenha uma quebra de corda crônica (o que é raro para quem está começando).

O seu foco deve ser: Tripa Sintética (Synthetic Gut) ou Multifilamento.

Tripa Sintética (Nylon): O melhor amigo do iniciante

A Tripa Sintética é o “arroz com feijão” bem feito. É geralmente feita de um núcleo sólido de nylon com algumas fibras em volta. Ela é barata, oferece um conforto decente e uma durabilidade aceitável. Para quem está aprendendo os golpes básicos, ela é perfeita. Ela oferece um feedback nítido e mantém a tensão por um tempo razoável antes de morrer.

É a corda de melhor custo-benefício. Como ela é barata, você não fica com pena de trocar a cada dois ou três meses. Isso é estratégico! Melhor jogar com uma tripa sintética nova e fresca do que com uma corda cara e velha.

Multifilamentos: Conforto premium vale o custo?

Se você pode investir um pouco mais, o multifilamento é a elite do conforto. São milhares de microfibras trançadas (sem núcleo sólido) unidas por uma resina flexível. Elas tentam imitar a tripa natural (de intestino de boi), que é a melhor corda do mundo.

O multifilamento é extremamente macio. Ele protege seu braço como nenhuma outra corda sintética. A bola sai com facilidade, muita potência e sensação. A desvantagem? Elas desfiam e podem quebrar mais rápido se você começar a bater com muito spin, e são mais caras. Mas para o aprendizado, a sensação de toque e conforto que elas proporcionam é inigualável. Se o orçamento permitir, vá de multi.

Aqui vai um quadro comparativo para te ajudar a visualizar as opções quando for na loja ou falar com o encordoador:

CaracterísticaTripa Sintética (Synthetic Gut)MultifilamentoPoliéster (Co-poly)
Público AlvoIniciantes e IntermediáriosIniciantes, Idosos, Jogadores com dor no braçoAvançados e Competidores
ConfortoBomExcelente (Máximo)Baixo (Rígida)
Manutenção de TensãoMédiaBoaPéssima (Morre rápido)
DurabilidadeMédiaBaixa (Desfia)Alta (Difícil de quebrar)
PotênciaMédiaAltaBaixa (Controle)
Preço$ (Econômica)$$$(Premium)$$ (Variável)
Veredito do CoachIdeal para começarÓtimo se busca conforto extraEvite por enquanto

Então, meu amigo, a lição de casa é simples: dê uma olhada na sua raquete hoje. Tente lembrar quando foi a última vez que você trocou as cordas. Se você não consegue lembrar, ou se foi há mais de três meses, passe na loja do clube hoje mesmo. Peça uma tripa sintética ou um multifilamento, coloque uma tensão média (algo entre 50 e 53 libras para não ficar nem muito tábua, nem muito estilingue) e vá para a quadra.

Eu te garanto que na primeira batida você vai sentir a diferença. A bola vai andar, o som vai ser gostoso e seu braço vai agradecer no dia seguinte. Vamos para a quadra, que o treino nos espera!

Próximo passo para você

Gostaria que eu te ajudasse a escolher a tensão (libragem) específica para o seu tipo de jogo atual, baseada na raquete que você já tem?

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