Raquete de Beach Tennis: O Mito do Gênero e a Realidade da Física

Fala, campeão! Que bom te ver aqui na areia de novo. Antes de a gente começar aquele aquecimento básico de voleio, preciso que você largue essa dúvida que está estampada na sua testa. Eu vejo isso todo dia aqui no clube. O aluno chega, olha para o paredão de raquetes na loja e me pergunta: “Coach, qual é a raquete de homem e qual é a de mulher?”.

A resposta curta? Não existe. A raquete não sabe quem está segurando o cabo. A bola não se importa se você é homem ou mulher quando ela explode no sweet spot. O que existe, e é sobre isso que vamos conversar hoje enquanto arrumamos a rede, é biomecânica, física e conforto. O mercado adora criar rótulos, pintar uma raquete de rosa e dizer que é “feminina”, ou colocar um grafismo agressivo em preto e dizer que é “masculina”. Mas, se você cair nessa, vai limitar o seu jogo.

Vamos desconstruir essa ideia juntos. Você precisa entender que a escolha do equipamento tem a ver com o seu estilo de play, a sua força muscular e, principalmente, a saúde das suas articulações. Esqueça o gênero da etiqueta e foque na extensão do seu braço. Vou te explicar como escolher a sua espada ideal para entrar em quadra e não sair dela direto para a fisioterapia.


A Verdade sobre “Masculino” e “Feminino” no Beach Tennis

O Marketing por trás das cores e estampas

Você já notou como as vitrines funcionam? Eles pegam uma raquete com núcleo de EVA Soft, colocam um acabamento floral ou tons pastéis e pronto: “Linha Feminina”. Aí pegam a mesmíssima estrutura, pintam de cinza chumbo com neon e viram “Linha Power Masculina”. Isso é estratégia de vendas, pura e simples. Não se deixe enganar pelo visual. A estética é importante para você se sentir bem em quadra – o tal do “look good, play good” é real –, mas ela não define a performance.

Eu já vi marmanjo de 1,90m jogando com raquete “rosa” porque ela tinha o balanço perfeito para o estilo de defesa dele, e vi jogadoras agressivas destruindo a bolinha com raquetes pretas pesadíssimas. A cor é o acabamento cosmético. O que vai definir se aquela raquete serve para você é o que está debaixo da tinta. Se você comprar baseando-se apenas em “seção masculina ou feminina”, você está comprando moda, não equipamento esportivo.

O perigo de cair nesse marketing é ignorar as especificações técnicas. Muitas vezes, as marcas assumem que mulheres querem raquetes “moles” e homens querem raquetes “duras”. Isso é uma generalização perigosa. Você pode ter uma mulher com uma técnica de smash apuradíssima que precisa de uma raquete rígida para soltar o braço, e um homem iniciante que precisa de uma raquete macia para aprender a controlar o lob.

Anatomia e Força: O que realmente importa

Aqui entramos no terreno real. A única diferença estatística entre homens e mulheres no esporte, de modo geral, é a média de massa muscular e força de explosão nos membros superiores. Historicamente, homens tendem a ter mais força bruta no ombro e antebraço. Por isso, eles costumam tolerar raquetes um pouco mais pesadas sem perder a velocidade do swing. Mas note que eu disse “costumam”.

Isso não é uma regra absoluta. Se você é uma jogadora que faz CrossFit ou musculação pesada, seu braço aguenta tranquilamente uma raquete de 340g. Se você é um jogador mais sedentário que está começando agora, uma raquete pesada vai te dar uma tendinite em duas semanas. A escolha deve ser baseada na sua capacidade física atual, não no seu gênero.

Portanto, quando falamos de “raquete feminina”, o mercado geralmente está oferecendo uma raquete mais leve e com furos distribuídos para facilitar o manuseio. Quando falam de “raquete masculina”, falam de peso na cabeça e materiais mais rígidos. Você deve se perguntar: “Eu tenho força para acelerar essa raquete ou ela vai atrasar meu golpe?”. Essa é a pergunta de um milhão de dólares.

O conceito Unissex e a padronização do equipamento

No circuito profissional, a grande maioria das raquetes é unissex. As marcas de topo, como a Heroe’s, Shark, ou Nox, desenvolvem moldes focados em performance. A raquete que o número 1 do mundo usa pode ser a mesma que a número 1 do mundo usa, talvez com uma ligeira adaptação de peso (algumas gramas a menos) ou de overgrip.

O Beach Tennis é um esporte democrático e o equipamento reflete isso. A padronização de tamanho (50cm) e espessura (geralmente 22mm) é igual para todos. Isso nivela o campo de jogo. O que muda é a “alma” da raquete – o material interno. E a alma não tem gênero.

Você vai perceber que, nas aulas avançadas, paramos de falar “pegue a raquete de mulher” e começamos a falar “pegue a raquete de controle” ou “pegue a raquete de potência”. Essa mudança de vocabulário é essencial para você evoluir. Trate o equipamento como uma ferramenta de engenharia, não como um acessório de vestuário.


O Peso: O Grande Divisor de Águas

Raquetes Leves (300g-320g): Agilidade e Defesa

Aqui é onde a mágica acontece para quem busca defesa e reflexo rápido. Raquetes na faixa de 300g a 320g são frequentemente rotuladas como “femininas”, mas eu prefiro chamá-las de raquetes de agilidade. No Beach Tennis, a bola volta muito rápido. Se você está na rede trocando voleios insanos, você precisa de uma raquete que se mova quase tão rápido quanto seu pensamento.

Uma raquete leve permite que você arme o golpe (o backswing) e termine o movimento (o follow-through) com muita velocidade. Para quem não tem um antebraço de fisiculturista, isso é ouro. Você consegue chegar naquela bola curta, consegue reagir a um smash no corpo e consegue manobrar o pulso para dar aquele efeito (spin) chato que mata o adversário.

Porém, leveza tem um preço: a estabilidade. Se você for bloquear um saque canhão com uma raquete muito leve, ela pode “tremer” na sua mão. A falta de massa faz com que você tenha que colocar mais do seu próprio braço na bola para gerar potência. É uma troca: você ganha em velocidade de reação, mas perde em “peso de bola”.

Raquetes Pesadas (330g+): A busca pelo Smash perfeito

Agora, se você gosta de ver a areia subir quando a bola bate no chão do outro lado, você vai olhar para as raquetes acima de 330g ou 340g. Geralmente associadas ao público masculino, essas raquetes funcionam como um martelo. A lei da física é clara: Força = Massa x Aceleração. Se você tem mais massa na raquete e consegue manter a aceleração, a pancada é monumental.

Essas raquetes são ideais para jogadores agressivos, aqueles que gostam de definir o ponto no saque ou no smash. Quando você acerta o sweet spot (o ponto doce, bem no meio) com uma raquete pesada, a bola sai “muda”, sem vibração, e viaja muito rápido. A raquete faz o trabalho por você na hora da batida.

O problema é mover esse martelo. Se o jogo ficar rápido, naquelas trocas de bola curtas, você pode chegar atrasado no golpe. Sabe quando você isola a bola lá no alambrado? Muitas vezes é porque você atrasou o movimento por causa do peso da raquete. O peso extra exige uma preparação física muito maior. Não adianta querer potência se você não consegue levantar o braço no terceiro set.

A Fadiga Muscular em jogos de longa duração

Aqui é onde eu vejo aluno desistindo de torneio. Você pega uma raquete linda, pesada, cheia de carbono 18K, joga 20 minutos e se sente o Rei da Praia. Mas aí vem o segundo jogo. O terceiro. O sol está rachando. De repente, seu ombro começa a pesar uma tonelada. O saque não entra mais. O braço não responde.

A fadiga muscular é cumulativa. Uma diferença de apenas 10 ou 15 gramas parece irrelevante segurando a raquete na loja, mas depois de 500 repetições de smash, esses 15 gramas viram quilos. Mulheres, que biologicamente costumam ter menos massa muscular na cintura escapular, sentem essa fadiga mais rápido se usarem equipamentos inadequados.

Por isso a recomendação “padrão” de raquetes mais leves para o público feminino faz sentido fisiológico, mas não é uma regra de ouro. O segredo é você testar. Pegue a raquete, jogue dois sets inteiros. Se no final do segundo set você ainda conseguir sacar com a mesma técnica do início, o peso está aprovado. Se o braço cair, esqueça o ego e baixe o peso.


Materiais e Rigidez: O Tato da Batida

Fibra de Vidro: A amiga do iniciante

Se você está começando agora, eu vou te dar um conselho de amigo: olhe com carinho para a Fibra de Vidro (Fiberglass). Muitas vezes o pessoal torce o nariz, acha que é material “barato”, mas para a biomecânica, é um dos melhores materiais que existem. A fibra de vidro é flexível. Ela trabalha como um trampolim.

Quando a bola bate na fibra de vidro, a face da raquete afunda um pouco e ejeta a bola. Isso chamamos de “efeito estilingue”. Significa que a bola sai forte mesmo que você não faça tanta força. Para mulheres iniciantes ou homens que ainda não têm a técnica do movimento completo, a fibra de vidro ajuda a passar a bola para o outro lado com facilidade.

Além disso, ela é macia. Ela não transfere a batida seca para o seu braço. É um material indulgente. Errou o meio da raquete? A fibra de vidro te perdoa um pouco. Errou o tempo de bola? Ela ajuda a empurrar. É o material do conforto e do aprendizado.

Carbono 3K vs. 12K: Entendendo a dureza

Aqui a conversa fica profissional. Você vai ouvir muito falar em “K”. 3K, 12K, 18K. Isso se refere à quantidade de filamentos de carbono por fio. Simplificando muito para a nossa aula: quanto maior o K, geralmente mais rígida (dura) pode ser a sensação da raquete (embora a resina e o EVA influenciem muito também).

O Carbono 3K é um meio-termo fantástico. Ele é leve, tem uma rigidez boa para dar controle, mas não é uma tábua. É muito comum em raquetes “femininas” de alta performance porque oferece precisão sem exigir que você seja um halterofilista. A bola obedece. Você coloca onde quer.

Já o Carbono 12K, 18K ou 24K tende a ser mais rígido (dependendo da trama). A batida é “seca”. Poc! A bola sai muito rápida, mas a raquete não ajuda tanto a impulsionar se você bater devagar. Você precisa gerar a força. Se você tem um braço forte e uma técnica apurada, o 12K/18K é o auge da precisão. Se você não tem braço para isso, vai sentir como se estivesse batendo na bola com uma frigideira de ferro.

O Kevlar e a absorção de impacto

O Kevlar é aquele material amarelado ou avermelhado, famoso pelos coletes à prova de balas. No Beach Tennis, ele é o rei da durabilidade e do controle. Ele é menos rígido que o carbono puro, mas mais firme que o vidro. Ele absorve o impacto de uma forma única.

Muitos profissionais recomendam Kevlar para quem sofre com dores, independentemente do gênero. Ele “mata” um pouco a vibração. Para jogadoras que buscam transição do iniciante para o intermediário, o Kevlar é uma ponte excelente. Ele te dá a sensação de profissionalismo, mas protege suas articulações.

Você vai encontrar muitas raquetes híbridas (Carbono + Kevlar). Essa mistura busca o melhor dos dois mundos: a potência do carbono com o conforto do Kevlar. É uma excelente pedida se você não sabe se quer ser um jogador de potência ou de controle.


Biomecânica e Prevenção de Lesões

O Cotovelo de Tenista (Epicondilite) e a vibração

Preste muita atenção agora, porque isso pode salvar sua carreira no esporte. A famosa “dor no cotovelo” (epicondilite lateral) é o pesadelo de qualquer tenista. Ela acontece por microtraumas repetitivos e vibração excessiva. E adivinha? Raquetes muito rígidas e muito pesadas são as vilãs aqui se você não tiver técnica., ao escolher sua raquete de beach tenis

Geralmente, mulheres têm tendões um pouco mais finos e articulações mais flexíveis que homens, o que pode, em alguns casos, predispor a certos tipos de lesão se o equipamento for muito “duro”. Uma raquete que vibra muito transfere essa energia direto para o seu tendão.

Se você sentir qualquer fisgada no cotovelo, pare. Avalie seu equipamento. Muitas vezes, trocar uma raquete de Carbono 18K por uma de Carbono 3K ou Fibra de Vidro resolve o problema em duas semanas. Não tente ser herói jogando com a raquete “dura” só porque disseram que é a melhor. A melhor raquete é a que te deixa jogar sem dor.

O tamanho da mão e a empunhadura (Grip)

Isso aqui quase ninguém fala, mas é fundamental na diferença biológica. Homens, na média, têm mãos maiores que mulheres. As raquetes de Beach Tennis vêm com um cabo padrão (geralmente L2 ou 4 1/4), que pode ser grosso demais para uma mão feminina pequena ou fino demais para uma mão masculina grande.

Se o cabo for grosso demais para sua mão, você não consegue fechar a pegada, e a raquete escapa no impacto. Se for fino demais, você aperta com muita força para segurar, e isso causa tendinite no antebraço.

O segredo é o ajuste. Se você tem a mão pequena (comum em muitas jogadoras), talvez precise tirar o cushion grip original e colocar apenas dois overgrips finos. Se tem a mão grande, vai precisar engrossar esse cabo. O teste é simples: segure a raquete. Deve sobrar um dedo de espaço entre a ponta dos seus dedos e a base do polegar. Esse ajuste fino é muito mais importante que a cor da raquete.

O movimento de alavanca e a saúde do ombro

No smash e no saque, seu braço funciona como uma alavanca. Quanto mais pesada a ponta dessa alavanca (a cabeça da raquete), maior a carga no fulcro (seu ombro – manguito rotador).

Para quem não tem a musculatura do ombro muito fortalecida – e isso é comum em quem trabalha em escritório o dia todo, seja homem ou mulher –, raquetes com balanço muito voltado para a cabeça (Head Heavy) são perigosas. Elas ajudam a descer a bola com força, mas “puxam” o ombro para fora do lugar na desaceleração.

Eu sempre recomendo para meus alunos e alunas iniciantes: comecem com raquetes de balanço equilibrado (Balance 25-26cm). Isso protege seu ombro enquanto você aprende a mecânica correta do movimento. Deixe as raquetes “cabeçudas” para quando você já tiver uns bons meses de fortalecimento na academia.


Personalização e o Fator Psicológico

O efeito placebo do equipamento bonito

Vamos ser honestos: entrar em quadra com uma raquete que você acha linda dá um boost na confiança. Se você se sente poderosa com uma raquete rosa neon e glitter, use! Se você se sente um guerreiro com uma raquete camuflada fosca, use! A psicologia no esporte é 50% do jogo.

Se você olha para sua raquete e não gosta dela, você já entra perdendo. O “design feminino” não é ruim por si só; ele é ruim quando mascara uma raquete de baixa qualidade. Mas se a qualidade técnica está lá (bom carbono, bom EVA), escolha a que faz seu coração bater mais forte. Confiança gera melhores golpes.

O uso de Overgrips para ajuste fino

Você sabia que o overgrip (aquela fitinha que enrolamos no cabo) muda o peso e o balanço da raquete? Um overgrip pesa cerca de 5 a 8 gramas. Se você coloca dois, já mudou o peso da raquete em 15g e trouxe o balanço para o cabo.

Muitas jogadoras compram raquetes “masculinas” (pesadas na cabeça) e enchem o cabo de overgrip. O resultado? A raquete fica mais pesada no total, mas o balanço fica neutro, tornando-a mais fácil de manusear. É um truque de mestre. Você pode pegar qualquer raquete do mercado e, com um pouco de chumbo adesivo ou grips, transformá-la na raquete ideal para sua mão.

Balanceamento: Peso na cabeça vs. Peso no cabo

Para fechar nossa parte técnica, entenda o balanço.

  • Peso na Cabeça (High Balance): A raquete parece mais pesada do que realmente é. Dá muita potência, mas cansa o braço e dificulta a defesa rápida.
  • Peso no Cabo (Low Balance): A raquete parece uma pena. Ótima para controle e voleios rápidos, mas você precisa fazer força para a bola andar.

Geralmente, raquetes voltadas ao público feminino tendem a ter um balanço mais centralizado ou voltado para o cabo, para evitar a fadiga. Mas, novamente, se seu jogo é de fundo de quadra, dando lob e smash, talvez você prefira um balanço levemente na cabeça, independente do seu gênero.


Quadro Comparativo: Entendendo na Prática

Para você visualizar, vamos comparar três perfis de raquetes reais que ilustram essas diferenças (sem se prender a rótulos, mas sim às características):

CaracterísticaPerfil “Agilidade/Controle” (Muitas vezes rotulada Feminina)Perfil “Potência Bruta” (Muitas vezes rotulada Masculina)Perfil “Híbrido/Unissex” (O equilíbrio ideal)
Exemplo de ModeloShark Predator (Versão Light) ou Adidas Adipower LightNox AT10 Attack ou Heroe’s 2024 PowerSexy Brand Woody ou Shark Kevlar
Peso Médio300g – 315g335g – 350g320g – 330g
Material da FaceCarbono 3K ou Fibra de VidroCarbono 12K, 18K ou 24KKevlar ou Carbono Misto
BalançoEquilibrado ou Cabo (25cm)Cabeça (26cm+)Equilibrado (25-26cm)
SensaçãoMacia, confortável, fácil de mexer.Dura, seca, explosiva.Firme, mas com absorção.
Ideal ParaDefesa, voleios rápidos, prevenção de dor.Ataque agressivo, smash, definição.Jogadores “All-around” (fazem tudo).

Próximo Passo para Você

Agora que você já sabe que “gênero” na raquete é lenda urbana e o que importa é a física, minha sugestão prática é a seguinte:

Não compre pela internet sem testar.

Vá até o pro-shop da sua arena ou peça emprestada a raquete daquele amigo ou amiga que joga bem. Teste uma raquete leve (310g) e uma mais pesada (330g) no mesmo dia. Sinta a diferença no seu ombro e na velocidade da bola. Só tire o cartão do bolso quando seu braço disser “é essa”.

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