Como cuidar e prolongar a vida útil da primeira raquete de ténis?

Fala, tenista! Bem-vindo à quadra. Hoje vamos conversar sobre algo que muitas vezes passa batido na empolgação de bater as primeiras bolas: a saúde da sua raquete.

Você acabou de investir na sua primeira raquete de verdade. Não estou falando daquela de alumínio do supermercado, mas daquela de grafite ou composto que você escolheu com carinho, talvez até testou antes de comprar. Ela é a extensão do seu braço. Se ela não estiver bem, seu jogo também não vai estar.

Eu vejo alunos trocando de raquete todo ano sem necessidade, ou pior, jogando com equipamentos “mortos” que estão machucando o cotovelo deles, simplesmente por falta de cuidado básico. A manutenção não é só estética; é sobre performance e prevenção de lesões.

Vamos mergulhar fundo em como transformar sua raquete em um parceiro de longa data, com dicas que uso com meus atletas de competição, mas explicadas aqui, olho no olho, para você aplicar hoje mesmo.


O Inimigo Invisível: Temperatura e Umidade

Muitos jogadores acham que a raquete só estraga se bater no chão. Esse é um erro clássico. O maior assassino de raquetes de tênis age em silêncio e, muitas vezes, longe da quadra. Estou falando das variações térmicas extremas.

A Ciência da Expansão do Grafite

Sua raquete é feita, provavelmente, de fibras de grafite unidas por uma resina especial. Pense nela como uma estrutura viva e rígida. Quando você deixa a raquete exposta a um calor intenso, essas fibras e, principalmente, a resina, sofrem uma expansão térmica. Isso altera a estrutura molecular do material.

Se isso acontece repetidamente, a raquete perde a “memória” original. Ela fica “mole”. Em termos técnicos, ela perde a rigidez estrutural. Você vai bater na bola e sentir que a raquete não responde mais, ela vibra de um jeito estranho e a bola não anda. Você força mais o braço para compensar, e é aí que surgem as dores no ombro e cotovelo.

A Lenda do Porta-Malas do Carro

Vou te contar uma regra de ouro: nunca, jamais, em hipótese alguma, deixe sua raquete no porta-malas do carro. No Brasil, a temperatura interna de um porta-malas pode passar facilmente dos 60°C sob o sol.

Isso é um forno para o seu equipamento. Já vi alunos perderem raquetes de mil reais porque deixaram no carro de manhã para jogar à noite. O calor não só deforma o aro, mas “cozinha” as cordas, fazendo elas perderem toda a tensão e elasticidade antes mesmo de você entrar em quadra. Trate sua raquete como se fosse um animal de estimação ou uma criança: se você não ficaria trancado no porta-malas, sua raquete também não deve ficar.

O Escudo Térmico: A Termobag

A solução é simples, mas exige disciplina. Use uma raqueteira com compartimento térmico (a famosa Termobag). Esse revestimento prateado que você vê dentro de algumas bolsas não é enfeite. Ele cria uma barreira de isolamento que mantém a temperatura interna estável.

Se você ainda não tem uma termobag, não tem problema. O segredo é levar a raquete com você. Chegou no trabalho? Leve a raqueteira para o escritório. Chegou em casa? Tire do carro imediatamente. Manter a raquete em temperatura ambiente, longe da umidade excessiva e do sol direto quando não está em uso, é o passo número um para ela durar anos.


O Coração da Raquete: Encordoamento e Tensão

Se o aro é o corpo, as cordas são o motor. É ali que a mágica acontece. E, infelizmente, é onde vejo o maior descuido entre iniciantes e intermediários. Jogar com corda velha é como dirigir uma Ferrari com pneus carecas.

A Tensão não é Eterna

Você encordoou sua raquete com 50 ou 55 libras. Ótimo. Mas saiba que, assim que a raquete sai da máquina de encordoar, ela já começa a perder tensão. É um processo natural chamado de “perda de tensão estática”.

Muitos alunos acham que só devem trocar a corda quando ela arrebenta. Isso é um mito perigoso. Cordas de poliéster (as mais comuns hoje em dia) morrem muito antes de quebrar. Elas perdem a elasticidade. Quando isso acontece, a corda não “devolve” a energia da bola. O resultado? Você tem que fazer muito mais força para a bola passar da rede, perdendo controle e aumentando drasticamente o risco de Tennis Elbow (epicondilite).

A Regra de Ouro da Troca

Existe uma regra prática antiga que diz: “Troque as cordas por ano o mesmo número de vezes que você joga por semana”. Se joga 3 vezes na semana, troque 3 vezes ao ano. Mas, sinceramente? Para cordas modernas de poliéster, isso é pouco.

Como seu treinador, minha recomendação é: se você joga regularmente (2 a 3 vezes por semana), tente trocar a cada 2 ou 3 meses, no máximo. Se você usa tripa sintética ou multifilamento, pode esperar um pouco mais, até notar que as cordas estão “sambando” (se movendo muito e não voltando para o lugar) ou desfiando. Confie na sensação. Se a bola está voando sem controle, pode não ser sua técnica, pode ser a corda morta.

O Teste do Som

Quer aprender um truque de pro? Ouça sua raquete. Uma corda nova e bem tensionada tem um som agudo, um “ping” limpo quando você bate nela com a mão ou no chão (com o cabo, levemente).

Uma corda morta tem um som surdo, grave, um “thud”. Se você bater nas cordas e o som for abafado e sem vida, é hora de visitar seu encoador de confiança. Não economize aqui. A corda é a parte mais barata do equipamento se comparada ao custo da raquete ou de uma fisioterapia.


A Conexão com a Mão: Grips e Higiene

O grip é o único ponto de contato entre você e a raquete. Se essa conexão falhar, não existe técnica que salve o golpe. Cuidar do cabo é cuidar da sua segurança e da estabilidade do seu jogo.

Cushion Grip vs. Overgrip

Vamos esclarecer a diferença. O Cushion Grip é aquela borracha grossa e acolchoada que já vem colada no cabo da raquete. O Overgrip é aquela fita fina que colocamos por cima do Cushion.

O erro mais comum que vejo é o aluno usar o Cushion Grip direto até ele se desintegrar. Não faça isso. O Cushion é caro e trabalhoso para trocar. Use sempre um Overgrip por cima. O Overgrip é descartável, barato e protege o Cushion original. Quando o Overgrip sujar ou perder a aderência, você troca em 1 minuto e sua raquete continua nova por baixo.

O Perigo do Suor e Bactérias

Tênis é um esporte de muito suor. Esse suor desce pelo braço e encharca o cabo da raquete. Com o tempo, esse acúmulo de umidade, sal e pele morta cria o ambiente perfeito para bactérias e fungos. Além do cheiro ruim, isso destrói o material do cabo.

Se você joga muito e transpira bastante, troque o Overgrip com frequência. Jogadores profissionais trocam a cada jogo ou treino. Você não precisa desse exagero, mas se o grip estiver preto, liso ou cheirando mal, já passou da hora. Uma raquete escorregadia faz você apertar o cabo com força excessiva desnecessariamente, tensionando o antebraço e prejudicando a fluidez do seu golpe.

A Pegada e o Risco de Voar

Já vi raquetes voarem da mão de alunos no momento do saque e quebrarem no meio da quadra. O motivo? Grip velho e liso. A economia de 20 ou 30 reais em um overgrip novo pode custar o preço de uma raquete inteira.

Mantenha a aderência sempre em dia. Existem overgrips “tacky” (pegajosos) para quem gosta de firmeza e “dry” (secos) para quem sua muito. Teste e descubra qual você prefere, mas mantenha-o sempre fresco. É a manutenção mais barata e a que mais impacta na sensação de segurança do seu jogo.


A Armadura da Raquete: Protetores e Grommets

A cabeça da raquete é a linha de frente da batalha. Ela raspa no chão quando você vai buscar aquela bola baixa de slice ou quando você, num momento de frustração, dá aquela “carimbada” leve no piso (evite isso!).

O Bumper Guard (Protetor de Cabeça)

No topo da raquete existe uma peça de plástico chamada “Bumper Guard”. Ela serve para proteger o grafite do contato com o chão. Se você joga em quadra rápida (lisonda), esse plástico se desgasta rápido.

Fique de olho nele. Se o Bumper Guard estiver muito ralado, a ponto de você começar a ver o grafite do aro por baixo, corra para uma loja especializada. Se o grafite começar a ralar no chão, a estrutura da raquete fica comprometida e ela pode rachar com qualquer impacto mais forte. Você pode trocar apenas essa peça de plástico (geralmente vendida junto com os grommets) e salvar a vida da raquete.

O Mistério dos Grommets (Passa-cordas)

Os grommets são aqueles tubinhos de plástico por onde a corda passa através dos buracos do aro. Eles parecem insignificantes, mas são vitais. Eles impedem que a corda, que é afiada quando tensionada, corte o grafite da raquete.

Com o tempo, a pressão da corda rasga esses tubinhos. Se isso acontecer, a corda entra em contato direto com o aro. O resultado? A corda vai arrebentar muito mais rápido (às vezes logo após encordoar) ou, pior, a tensão vai rasgar o aro da raquete de dentro para fora. Quando for trocar a corda, peça para o encoador dar uma olhada no estado dos grommets.

Evitando a “Raqueteirada”

Eu sei, o tênis é frustrante. Você erra um smash fácil e a vontade é jogar a raquete na lua. Mas lembre-se: sua raquete não tem culpa do seu erro de footwork. Impactos intencionais no chão ou na rede criam microfissuras internas, ao escolher uma raquete de tenis para inciantes

Essas fissuras não são visíveis a olho nu, mas elas crescem com a vibração de cada batida na bola. Um dia, num golpe normal, a raquete simplesmente “explode” ou quebra no meio. Trate sua raquete com respeito. A frustração passa, o prejuízo no bolso fica. Canalize a raiva para focar no próximo ponto, não para destruir seu equipamento.


Rituais de Vestiário: A Rotina do Profissional

O cuidado não termina no Match Point. O que você faz nos 15 minutos após o jogo define a longevidade do seu material. Vamos criar uma rotina de vestiário digna de um tenista ATP.

Limpeza Pós-Jogo: O Detalhe do Saibro

Se você joga no saibro (terra batida), sua raquete sai da quadra imunda. O pó de telha entra em todos os cantos: nos grommets, na junção do cabo, nas tramas da corda. O saibro é abrasivo. Se deixado lá, ele age como uma lixa fina, desgastando o material.

Tenha sempre um pano de microfibra ou uma toalha pequena na bolsa, exclusivo para isso. Terminou o jogo? Limpe o aro. Use um pouco de água da sua garrafinha para umedecer o pano se precisar, mas evite produtos químicos fortes. Limpe o excesso de saibro do Bumper Guard e das cordas. Isso mantém a raquete leve e evita que a sujeira entre na sua bolsa e nos seus outros equipamentos.

Inspeção Visual de Trincas

Enquanto você limpa, faça uma inspeção rápida. Passe o olho pelo aro, especialmente na região do “coração” da raquete (a garganta) e nas laterais (3 e 9 horas, imaginando um relógio). Procure por linhas finas de tinta estalada.

Muitas vezes, uma trinca começa apenas na pintura. Se você notar algo suspeito, pressione levemente a área com o dedo. Se a tinta “respirar” (abrir e fechar) ou fizer um estalo, é um sinal de dano estrutural. Identificar isso cedo evita que a raquete quebre na sua mão durante um jogo importante ou cause uma lesão por vibração excessiva.

O Uso Correto da Termobag

Na hora de guardar, organização é chave. Não jogue a raquete de qualquer jeito junto com tênis sujos, roupas molhadas e latas de bola. A umidade da sua roupa suada é péssima para a raquete.

A raquete deve ir no compartimento térmico, sozinha. Se sua bolsa não tem divisórias, use a capa simples (aquela que vem com a raquete) antes de colocar na mochila. Certifique-se de que não há nada pesado pressionando as cordas. Uma garrafa de água ou lata de bolas apertando as cordas dentro da bolsa pode deformar o encordoamento ou até o aro se ficar assim por horas. Organize sua bolsa de forma que a raquete fique “livre” de pressão lateral.


Manutenção Preventiva de Longo Prazo e Aposentadoria

Mesmo com todo o cuidado, nada dura para sempre. Vamos falar sobre o ciclo de vida longo e quando é hora de dizer adeus e fazer o upgrade.

Troca de Grommets (Passa-cordas)

Já mencionamos os grommets, mas vale reforçar como uma manutenção de longo prazo. Se você joga com frequência, planeje trocar o conjunto completo de plásticos e grommets (o chamado “Bumper and Grommet Set”) uma vez por ano ou a cada 18 meses.

Custa barato (geralmente entre 50 e 100 reais) e faz a raquete parecer nova. Além de proteger o aro, grommets novos seguram melhor as cordas e absorvem mais vibração. É como trocar os amortecedores do carro. A sensação de batida fica mais sólida e confortável imediatamente. Peça para seu encoador encomendar a peça específica para o seu modelo.

Monitoramento da Rigidez do Aro

Com o passar dos anos (3, 4, 5 anos de uso intenso), a raquete “cansa”. As fibras de grafite fadigam. A raquete fica excessivamente flexível. Você vai notar que precisa gerar muito mais potência para a bola andar, e o controle diminui.

Não existe conserto para fadiga de material. É o ciclo natural. Se você sente que está batendo bem, com técnica correta, corda nova, mas a bola continua morrendo na rede ou saindo sem peso, pode ser que sua companheira tenha chegado ao fim da vida útil. Jogar com uma raquete morta é pedir para ter lesão, pois seu corpo tenta compensar a falta de energia do equipamento.

Quando Aposentar a Raquete

A vida útil de uma raquete bem cuidada, para um jogador amador que joga 2x por semana, pode chegar a 5 anos ou mais. Mas fique atento aos sinais.

  1. Ruídos internos: Se chacoalhar a raquete e ouvir algo solto dentro (como areia), pode ser grafite que se soltou internamente.
  2. Fissuras reais: Se a trinca atravessou a estrutura.
  3. Deformação: Se colocar a raquete numa mesa plana e a cabeça estiver empenada (torta).

Se acontecer qualquer um desses, é hora de aposentar a guerreira. Pendure-a na parede como troféu e parta para uma nova tecnologia. O tênis evolui, e as raquetes novas trazem tecnologias de absorção de impacto que protegem ainda mais seu corpo.


Comparativo: O Valor do Cuidado

Para você entender onde sua raquete se encaixa e por que esses cuidados são específicos para ela, veja este comparativo rápido:

CaracterísticaRaquete de Alumínio (Supermercado)Sua Primeira Raquete (Composite/Grafite)Raquete de Performance (Pro Stock)
MaterialLiga metálica oca e barata.Grafite fundido ou composto de fibra.100% Grafite de alto módulo + Tecnologias (Kevlar, etc).
Sensibilidade ao CalorBaixa (Metal deforma menos, mas esquenta muito).Alta (Grafite expande e perde rigidez).Altíssima (Estrutura precisa e delicada).
Manutenção de CordasCordas geralmente de fábrica, baixa tensão.Essencial. Exige trocas periódicas para manter performance.Crítica. Jogadores trocam a cada poucos jogos.
Risco de QuebraEntorta antes de quebrar.Pode trincar com impactos médios.Quebra se houver impacto forte ou falha estrutural.
Custo de ReposiçãoBaixo (Descartável).Médio/Alto (Investimento).Muito Alto.
Necessidade de ProteçãoMínima.Média/Alta (Overgrip, Bumper, Termobag).Máxima (Equipamento de precisão).

Cuidar da sua raquete é parte do ritual do tênis. É o respeito pelo esporte e pela ferramenta que te permite evoluir.

Se você seguir esses passos — proteger do calor, manter as cordas frescas, cuidar do grip e fazer a higiene pós-jogo — sua primeira raquete de qualidade vai te acompanhar por muitas vitórias, tie-breaks tensos e momentos incríveis em quadra. E o mais importante: seu braço vai agradecer.

Quer uma sugestão para começar agora? Pegue sua raqueteira, tire tudo de dentro, limpe os bolsos e verifique se não tem nenhuma roupa úmida esquecida lá no fundo pressionando sua raquete. Organize sua “casa” e bora pro play!

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