Raquetes de ténis “modernas” vs. “clássicas”: O que se adequa ao seu estilo?

Certo, vamos bater um papo sério sobre equipamento. Senta aí. Eu vejo você olhando para a raquete do Alcaraz, aquela Babolat Pure Aero amarela, e achando que é a solução mágica para o seu forehand. Aí, na semana seguinte, você vê um vídeo do Sampras ou do Federer e decide que precisa de uma Wilson Pro Staff, pesada, preta, aro fino, para ter aquele “toque” clássico. Você está pulando de galho em galho, de uma raquete moderna para uma clássica, e seu jogo não sai do lugar.

O problema é que você está fazendo a pergunta errada. Não existe raquete “melhor”. Existe a raquete “certa” para o seu swing, para o seu estilo. O tênis mudou. A física do jogo mudou. As raquetes modernas, leves e rígidas, não foram criadas porque são “melhores” que as clássicas; elas foram criadas porque o estilo de jogo moderno, baseado em potência e “topspin” pesado lá do fundo da quadra, exigiu uma ferramenta diferente.

Entender a diferença entre o DNA de uma raquete clássica e o de uma moderna é o primeiro passo para você parar de gastar dinheiro à toa e finalmente encontrar uma parceira que complemente o que você faz de melhor na quadra. Não adianta querer dar um “limpador de para-brisa” (windshield wiper forehand) com uma raquete de 350 gramas e cabeça de 85 polegadas. Você vai parar no ortopedista. Vamos dissecar isso, como um professor de verdade faria.

O DNA da Raquete Clássica: A Era do “Toque” e Controle

Quando falamos em raquetes “clássicas”, estamos falando da era de ouro dos anos 80 e 90. Pense em Edberg, Sampras, ou no início do Federer. Eram raquetes que hoje chamamos de “raquetes de jogador” (player’s specs). Elas eram pesadas, flexíveis e tinham a cabeça pequena. Elas não davam nada de graça. Elas exigiam que o jogador tivesse técnica completa, um swing longo e força física para gerar potência. Em troca, elas davam uma coisa que os jogadores modernos buscam até hoje: “feeling” (sensação) e controle absoluto.

Essas raquetes eram feitas para um jogo de saque-e-voleio e “all-court” (toda a quadra). O jogo era mais rápido em termos de tempo de reação na rede, mas a bola andava menos vinda do fundo. Os golpes eram mais planos (flat) ou com “slice”. O “topspin” existia, claro, mas não era o monstro que é hoje. A ferramenta era desenhada para precisão, não para força bruta.

O material era 100% grafite, muitas vezes trançado (braided graphite) ou misturado com Kevlar. A sensação era “amanteigada”, “plush”. Quando você acertava o “sweet spot” (ponto doce), você sentia a bola afundar nas cordas e sair exatamente para onde você mirou. Quando você errava o ponto doce, a raquete te punia. Ela vibrava, torcia na sua mão e a bola morria na rede. Ela era uma professora exigente.

Peso e Balanço: A estabilidade do Saque-e-Voleio

A primeira coisa que você nota em uma raquete clássica, como uma Pro Staff 85, é o peso. Elas pesam, sem corda, 330, 340 gramas ou mais. Hoje, o padrão é 300 gramas. Esse peso extra não era um defeito, era uma característica fundamental. Essa massa (peso) era o que dava “plow-through” — a capacidade da raquete de atravessar a bola sem desacelerar, mantendo a estabilidade.

Esse peso era vital para o saque-e-voleio. No saque, a massa gerava potência “pesada”, aquela bola que quica e ganha velocidade. No voleio, o peso impedia que a raquete torcesse na sua mão ao bloquear um “passing shot” forte. Se você tentar bloquear um golpe de 150 km/h com uma raquete leve de 280 gramas, a raquete vai vibrar e a bola vai voar sem direção. A raquete pesada é estável.

O balanço (equilíbrio) era quase sempre “head-light” (HL), ou seja, com o peso concentrado no cabo. Isso pode parecer contraintuitivo para uma raquete pesada, mas era genial. O peso no cabo fazia com que a sensação de peso na cabeça fosse menor, tornando a raquete surpreendentemente manobrável na rede. Você conseguia reagir rápido aos voleios de reflexo, apesar do peso total da raquete ser alto.

Aro Fino e Flexível (Low RA): Sentindo a bola na rede

O segundo pilar clássico é o aro (o “beam”). Ele era fino, muito fino. Estamos falando de 17mm a 21mm. Compare isso com os 26mm ou 27mm de uma raquete moderna de potência. O aro fino tem uma consequência direta na física: ele é flexível. Em termos técnicos, ele tem um “RA” (Índice de Rigidez) baixo, geralmente abaixo de 62.

Quando a bola bate em uma raquete flexível, o aro “dobra” para trás por alguns milissegundos a mais. A bola fica mais tempo em contato com as cordas (o “dwell time”). Para o jogador, isso se traduz em uma palavra: “feeling” (sensação). Você sente a bola. Você sabe exatamente o que está acontecendo no impacto, o que permite fazer ajustes finos.

Essa flexibilidade é o que dava o controle lendário dessas raquetes. Elas absorviam a potência do oponente e devolviam com precisão. Eram perfeitas para voleios de “toque” (touch) e “drop shots” (curtinhas), porque a raquete não “expulsava” a bola com violência. O aro flexível absorve o impacto, o que também é excelente para o braço, reduzindo drasticamente o risco de “tennis elbow” (lesão no cotovelo).

Cabeça Pequena (Midsize) e Trama Fechada: A precisão cirúrgica

Finalmente, o tamanho da cabeça. O padrão clássico era “Midsize”, que significava 85 a 90 polegadas quadradas. A Wilson Pro Staff 85, usada por Sampras, é o exemplo perfeito. O “sweet spot” (ponto doce) era minúsculo, do tamanho de uma moeda. Isso exigia que o jogador fosse tecnicamente perfeito em todos os golpes. Você precisava de um “footwork” (trabalho de pés) impecável para se posicionar e acertar a bola sempre no centro.

A recompensa por essa exigência era uma precisão de laser. Você mirava na linha, e a bola ia na linha. Para complementar essa precisão, o padrão de cordas era quase sempre “fechado” (denso), como 18×20. Mais cordas na trama significam menos espaço para a bola “morder” e gerar spin, mas significam mais controle direcional. O golpe era plano (flat) ou com “slice” (efeito cortado).

O jogo era sobre encontrar ângulos, usar o “slice” para trazer o oponente para a rede e passar com um golpe plano e preciso. A raquete clássica era uma espada. Precisa, letal nas mãos certas, mas inútil para quem não tinha o treinamento para usá-la. Ela não perdoava erros.


A Revolução Moderna: A Era da Potência e do “Spin”

Então, o jogo mudou. Começou no final dos anos 90, com jogadores como Gustavo Kuerten e Carlos Moya, e explodiu com Rafael Nadal. O jogo saiu da rede e foi para o fundo da quadra. Os jogadores pararam de tentar acabar o ponto rápido e começaram a trocar bolas pesadas, com muito “topspin”, até que o oponente errasse ou desse uma bola curta. O “saque-e-voleio” morreu. Nasceu o “baseline game”.

As raquetes clássicas eram péssimas para esse jogo. Elas eram pesadas demais para gerar a velocidade de swing necessária para o “topspin” moderno. Elas não tinham potência suficiente para empurrar o oponente para trás do fundo da quadra. E o “sweet spot” pequeno era um pesadelo contra bolas que quicavam altas e cheias de efeito.

A indústria respondeu. A Babolat liderou essa revolução com a Pure Drive (Moya, Roddick) e, depois, a Pure Aero (Nadal). Essas raquetes tinham o DNA oposto. Eram leves, rígidas e com cabeça grande. Elas eram feitas para uma coisa: gerar potência e “spin” com o mínimo de esforço. Elas democratizaram a força.

Mais Leve, Mais Rígida (High RA): O motor do “Topspin”

A raquete moderna padrão pesa 300 gramas. Essa redução de peso permite ao jogador balançar a raquete muito mais rápido. A velocidade da cabeça da raquete (racket head speed) é o ingrediente principal para gerar “spin”. Você precisa “raspar” a bola de baixo para cima, em alta velocidade. Uma raquete mais leve facilita imensamente esse movimento.

Mas se você apenas deixar a raquete mais leve, ela perde estabilidade e potência. Como compensar? Aumentando a rigidez. As raquetes modernas têm um RA altíssimo, muitas vezes acima de 68 ou 70. Um aro rígido não “dobra” no impacto. Ele age como uma parede. Toda a energia que você coloca no golpe (e a energia que vem da bola do oponente) é devolvida.

Esse é o “efeito trampolim”. A raquete moderna é um canhão. Ela não absorve o impacto; ela o repele. Isso gera uma potência explosiva, mesmo com um swing mais curto ou menos perfeito tecnicamente. O aro rígido é o motor do jogo moderno.

Aro Grosso (Thick Beam): Potência “gratuita” do fundo da quadra

Para conseguir essa rigidez alta sem adicionar peso, os engenheiros precisaram fazer os aros mais grossos. Onde uma raquete clássica tinha 19mm, uma Pure Drive tem 26mm ou 27mm. Esse aro grosso (thick beam) é o que impede a raquete de torcer ou vibrar, mesmo sendo leve.

O aro grosso cria uma plataforma de batida incrivelmente estável. Isso é o que chamamos de potência “gratuita” (free power). Você não precisa fazer um swing perfeito e longo, como o Sampras. Você pode fazer um swing mais curto, mais compacto, e a raquete faz o trabalho sujo de gerar profundidade na bola.

Essa estabilidade também aumenta o “sweet spot” percebido. Mesmo se você pegar a bola um pouco fora do centro, o aro grosso não deixa a raquete torcer, e a bola ainda sai com uma velocidade decente. Para o jogador de fundo de quadra, que está trocando 15 ou 20 bolas por ponto, essa tolerância a erros é fundamental.

Cabeça Maior (Midplus) e Trama Aberta: O efeito “limpador de para-brisa”

O tamanho da cabeça também cresceu. O “Midsize” (90in) morreu. O “Midplus” (98in a 100in) virou o padrão da indústria. A Pure Aero e a Pure Drive têm 100 polegadas quadradas. Esse aumento de área dá uma margem de erro gigantesca. Você pode pegar a bola atrasado, ou na altura do ombro (o que era um pesadelo com raquetes clássicas), e a raquete te salva.

Junto com a cabeça maior, veio o padrão de cordas “aberto” (16×19 ou até 16×18). Menos cordas significam mais espaço entre elas. Quando a bola bate, as cordas (especialmente as de poliéster modernas) se movem mais livremente e “mordem” a bola.

No impacto, as cordas principais se deslocam e, segundos depois, voltam ao lugar com violência (o “snap-back”). É esse “snap-back” que gera o “topspin” monstruoso que vemos hoje. O swing moderno, o “limpador de para-brisa” (windshield wiper), onde o jogador termina o golpe com o cotovelo apontando para o oponente, só é eficaz por causa dessa combinação: cabeça leve para acelerar, aro rígido para potência, e trama aberta para o “snap-back”.


Tabela Comparativa: O Duelo das Especificações

Para você visualizar, vamos colocar lado a lado as três categorias: a “Clássica Pura” (como a Pro Staff 85), a “Moderna Pura” (como a Pure Aero) e o que eu chamo de “Clássica Moderna”, que é o caminho do meio (como uma Wilson Blade 98 ou Head Speed Pro), onde muitos jogadores avançados e profissionais se encontram.

CaracterísticaRaquete Clássica (Ex: Wilson Pro Staff 85)Raquete Moderna (Ex: Babolat Pure Aero)“Clássica Moderna” (Ex: Wilson Blade 98)
Peso (sem corda)Muito Pesada (330g – 350g)Média-Leve (295g – 310g)Pesada (305g – 320g)
BalançoMuito “Head-Light” (Cabo Pesado)Equilibrada ou “Head-Heavy” (Cabeça Pesada)“Head-Light” (Cabo Pesado)
Tamanho da CabeçaMidsize (85in² – 95in²)Midplus (100in² – 105in²)Midplus (97in² – 98in²)
Rigidez (RA)Baixa (Flexível) (RA 55 – 62)Alta (Rígida) (RA 68 – 72+)Média (RA 62 – 67)
Espessura do AroFino (17mm – 21mm)Grosso (24mm – 27mm)Médio (21mm – 23mm)
Padrão de CordasFechado (18×20)Aberto (16×19)Aberto (16×19) ou Fechado (18×20)
Estilo de JogoSaque-e-Voleio, All-Court, Golpes PlanosBaseline Agressivo, Topspin PesadoAll-Court Agressivo, Controle com Spin

O Jogador de Fundo de Quadra (Baseline): Por que o Tênis Moderno Venceu

O jogo de hoje é dominado pelo fundo da quadra. Se você é um jogador que baseia seu jogo em trocar bolas do “baseline”, tentando mover o oponente com golpes pesados e cheios de efeito, a raquete moderna é a sua ferramenta. Tentar jogar assim com uma raquete clássica é como tentar correr uma maratona com botas de escalada. Você pode até conseguir, mas o esforço será o triplo.

O tênis moderno é sobre geometria e física. Você não está mais tentando acertar a linha. Você está tentando acertar a bola alta, funda e com “spin”, para empurrar seu oponente para trás da linha de base, abrindo a quadra para um golpe vencedor. A raquete moderna é construída para facilitar essa geometria.

O “baseline” agressivo é o padrão. Você vê isso no Alcaraz, na Swiatek. Eles não estão esperando o erro; eles estão forçando o erro através de pura velocidade de bola e rotação. A raquete é uma extensão desse estilo de jogo.

Gerando seu próprio ritmo: A física do aro rígido

Uma raquete clássica, flexível, é ótima para redirecionar o ritmo. Quando Sampras recebia um saque forte, seu aro flexível absorvia o impacto e permitia que ele bloqueasse a bola de volta com controle. Mas ele precisava da potência do oponente para funcionar.

A raquete moderna, rígida, é feita para criar o ritmo do zero. O aro rígido (High RA) devolve quase 100% da energia. Isso significa que, mesmo em uma bola lenta no meio da quadra, você pode gerar uma velocidade absurda. Você não precisa mais de um swing perfeitamente longo. Um swing compacto e rápido é suficiente para a raquete “explodir” a bola. para raquetes de tenis para jogadores intermediários

Para o jogador de fundo de quadra, isso é tudo. Você não depende do oponente. Você dita o ritmo do ponto. Você pode estar na defensiva, correndo, e ainda assim conseguir gerar profundidade e altura na bola, graças ao “efeito trampolim” do aro rígido.

A margem de erro: Como o “spin” mudou a geometria da quadra

O “topspin” é a maior revolução do tênis. E a raquete moderna é a máquina de “topspin”. O “spin” faz a bola girar para frente, criando uma zona de baixa pressão em cima da bola e alta pressão embaixo. Isso faz a bola “mergulhar” (o “dip”).

Por que isso é importante? Porque permite que você bata na bola com força, bem acima da rede, e ela ainda caia dentro da quadra. A “janela” que você tem para acertar a bola aumentou. Com uma raquete clássica de golpe “flat”, você tinha que mirar poucos centímetros acima da rede. Com uma raquete moderna de “spin”, você pode mirar um metro acima da rede com força total.

A trama aberta (16×19) e as cordas de poliéster modernas são desenhadas para maximizar esse efeito. Para o “baseliner”, isso significa consistência. Você pode trocar 20 bolas sem errar, porque sua margem de segurança acima da rede é muito maior.

O swing “Windshield Wiper”: A técnica que nasceu da tecnologia

O golpe de “forehand” mudou. Antigamente, o swing era mais linear, “através” da bola, terminando por cima do ombro oposto. Hoje, o swing é rotacional. É o “limpador de para-brisa” (windshield wiper). O jogador bate na bola e o braço gira rapidamente na frente do corpo, como um limpador de para-brisa.

Esse movimento é quase impossível de fazer com eficiência usando uma raquete clássica de 350 gramas. Você destruiria seu pulso e cotovelo. A raquete moderna, leve (300g), foi desenhada para essa biomecânica. Ela permite que o jogador acelere o pulso e o antebraço de forma explosiva, “escovando” a bola para cima.

É uma simbiose. A tecnologia (raquete leve e rígida) permitiu a nova técnica (swing rotacional). E a nova técnica exige a nova tecnologia. Se seu “forehand” se parece mais com o do Nadal do que com o do Sampras, você precisa de uma raquete moderna.


O Jogador Agressivo (All-Court/Net): Onde o “Feeling” Clássico Sobrevive

Agora, isso significa que as raquetes clássicas (ou “clássicas modernas”) morreram? De jeito nenhum. Se você é um jogador que gosta de variar o jogo, que não quer ficar só no fundo da quadra, que gosta de subir à rede, usar “slices” e “drop shots”, o “feeling” de uma raquete mais flexível e pesada ainda é imbatível.

Jogadores como Roger Federer (que usou uma Pro Staff de 90 polegadas a maior parte da carreira) ou, hoje, jogadores como Jannik Sinner (Head Speed) ou Stefanos Tsitsipas (Wilson Blade) não usam “canhões” como a Pure Aero. Eles usam raquetes mais pesadas, mais flexíveis e com mais controle.

Eles são jogadores “all-court”. Eles precisam da potência do fundo, mas também precisam do “toque” na rede. Eles sacrificam um pouco da potência “gratuita” em troca de muito mais sensação e precisão.

A arte perdida do voleio: Precisão e “toque”

O maior problema de uma raquete moderna (rígida e leve) é o voleio. Aquele aro rígido que é tão bom para potência no fundo é um pesadelo na rede. A bola bate e “pula” da raquete sem controle nenhum. É muito difícil dar um voleio curto, angulado, com um “trampolim” na mão.

Uma raquete mais flexível (RA baixo) e mais pesada brilha na rede. O aro flexível “absorve” o impacto, e a bola fica na corda tempo suficiente para você direcionar o voleio com precisão. O peso da raquete dá a estabilidade para bloquear qualquer bola, não importa a velocidade.

Se você baseia seu jogo em duplas, ou se você é um jogador de simples que gosta de sacar e volear, ou fazer “approach” (aproximação) e fechar o ponto na rede, você vai sofrer com uma raquete moderna de potência. Você precisa de “feeling”, e “feeling” vem da flexibilidade.

Slices e “approach shots”: A vantagem do aro flexível

O “slice” é outra vítima das raquetes modernas. Um aro rígido e leve tende a fazer o “slice” flutuar. A bola não “corta” o ar, ela “boia” e fica alta para o oponente atacar.

Uma raquete clássica, pesada e flexível, é uma máquina de “slice”. O peso (massa) da raquete “atravessa” a bola, e o aro flexível permite que você “sinta” a bola nas cordas, aplicando o efeito “backspin” com precisão. O resultado é aquele “slice” venenoso, que quica baixo e derrapa na quadra.

Para um jogador “all-court”, o “slice” é uma arma tática. É usado para mudar o ritmo, para se defender ou, o mais importante, como um “approach shot” para subir à rede. Se essa é uma parte importante do seu arsenal, uma raquete com DNA clássico (pesada, flexível) é sua aliada.

O mito do “braço de tenista”: Raquetes modernas e o risco de lesão

Aqui está o ponto mais importante para jogadores amadores. As raquetes modernas têm um lado sombrio: o risco de lesão. A combinação de um aro muito rígido (High RA) com as cordas de poliéster (que também são muito rígidas) é uma bomba-relógio para o seu cotovelo e ombro.

O aro rígido não absorve vibração; ele a transfere diretamente para o seu braço. Se sua técnica não for perfeita, ou se você jogar com cordas “mortas” (o poliéster perde a elasticidade muito rápido), você está pedindo por uma epicondilite (tennis elbow).

Raquetes clássicas e “clássicas modernas” são infinitamente mais confortáveis. O aro flexível (Low RA) funciona como um amortecedor. Ele dissipa a vibração antes que ela chegue ao seu cabo e ao seu braço. Se você tem histórico de dor, ou se você é um jogador mais velho que preza pelo conforto, fuja das raquetes muito rígidas. Seu braço vai agradecer.


O Caminho do Meio: As Raquetes “Modern Classic”

Você deve ter notado que eu mencionei uma terceira categoria: a “Clássica Moderna”. A verdade é que 90% dos jogadores avançados e profissionais não usam nem a Pure Aero (moderna pura) nem a Pro Staff 85 (clássica pura). Eles vivem em um meio-termo muito otimizado.

Marcas como Wilson (com a linha Blade), Head (Speed e Prestige) e Yonex (VCore Pro e Ezone) dominam esse espaço. Essas raquetes pegam o melhor dos dois mundos. Elas têm a cabeça Midplus (97-98 polegadas) e padrões de corda abertos (16×19) do jogo moderno, mas mantêm o aro mais fino (21-23mm) e a flexibilidade (RA 62-67) do jogo clássico.

Elas também são mais pesadas que as raquetes modernas de potência, geralmente na faixa de 305g a 315g, e com balanço “head-light” (cabo pesado). Elas oferecem controle e “feeling” sem sacrificar totalmente a potência e o “spin”. Para um jogador amador em evolução, que já passou da fase iniciante e busca controle sem se lesionar, essa categoria é quase sempre a resposta certa.

O que são as “raquetes de jogador” atuais?

Quando você vê um profissional jogando, ele provavelmente está usando uma raquete dessa categoria. A Wilson Blade, por exemplo, é uma raquete de aro fino e flexível, mas com cabeça 98 e padrão 16×19. Ela é a evolução direta da raquete clássica. Ela te dá o “feeling” para volear e dar “slices”, mas tem “spin” suficiente para o jogo de fundo moderno.

A Head Speed, usada pelo Djokovic (apesar da dele ser uma versão antiga pintada) e pelo Sinner, é semelhante. Ela é balanceada para ser rápida (Speed), mas tem controle e conforto. Elas são raquetes que exigem que você gere a potência. Elas não são “canhões” automáticos.

Essas raquetes são para o jogador que já tem um swing completo, que gosta de variar o jogo, mas que entende que o “topspin” é necessário para competir hoje. É o equilíbrio perfeito entre a “espada” clássica e o “canhão” moderno.

Combinando peso e manuseabilidade (O Swingweight)

Quando você chegar nesse nível de raquete, vai parar de olhar apenas para o peso estático (o número na balança) e começar a se importar com o “Swingweight” (SW). Esse é o número mais importante e o mais complicado. Ele mede o quão “pesada” a raquete parece quando você faz o swing.

Uma raquete pode ser leve (300g), mas ter todo o peso na cabeça (head-heavy). O “Swingweight” dela será alto, e ela parecerá um martelo, difícil de acelerar. Outra raquete pode ser pesada (320g), mas ter todo o peso no cabo (head-light). O “Swingweight” dela pode ser menor que o da raquete leve, e ela parecerá rápida e manobrável.

As raquetes “clássicas modernas” buscam um “Swingweight” alto (para estabilidade e potência) mas com um balanço “head-light” (para manuseabilidade na rede). É um ajuste fino, e é por isso que jogadores avançados gastam tanto tempo testando raquetes.

O papel das cordas híbridas nessa equação

Para completar esse “caminho do meio”, os jogadores misturam as cordas. Eles usam uma corda de poliéster (moderna, para spin e controle) nas cordas principais (mains) e uma corda de tripa natural ou multifilamento (clássica, para conforto e potência) nas cordas transversais (crosses).

É o “híbrido”, famoso pelo Federer. Você pega o “spin” e a durabilidade do poliéster e combina com o conforto e o “feeling” da tripa. Você está, literalmente, colocando o DNA moderno e o DNA clássico na mesma raquete.

Para um jogador amador que usa uma raquete “clássica moderna” (como uma Blade ou Speed) e sofre com o braço, um encordoamento híbrido é a solução perfeita. Você mantém o controle e o “feeling” sem sacrificar seu cotovelo.


Testando e Escolhendo: O “Demo” é o seu Melhor Professor

Então, o que você faz com toda essa informação? Você para de ler reviews na internet e vai para a quadra. A única forma de saber o que funciona é testando. O “demo” (teste de raquete) é seu melhor amigo.

Você precisa pegar uma raquete de cada família. Pegue uma “moderna pura” (Pure Aero 100in, 300g, High RA). Pegue uma “clássica moderna” (Blade 98, 305g, Medium RA). E se você for corajoso, pegue uma “clássica pura” (Pro Staff 97, 340g, Low RA). E jogue com elas.

Não bata cinco minutos e decida. Jogue um set inteiro. Jogue pontos. Faça o que você faz no seu jogo. Saque, voleie, troque bolas do fundo, dê “slices”. E preste atenção no que a raquete está te dizendo.

Por que a raquete do seu ídolo (provavelmente) não serve para você

Esqueça o seu ídolo. O Nadal joga com a Pure Aero, certo? Errado. Ele joga com uma versão muito antiga, a “AeroPro Drive Original”, que não é vendida, com quilos de fita de chumbo (lead tape) customizada, pesando muito mais de 300g. O que a Babolat vende é uma “paint job” (trabalho de pintura) da raquete dele.

O mesmo vale para o Djokovic, o Alcaraz, todos eles. Eles usam “pro stocks” — raquetes customizadas de fábrica que não têm nada a ver com o que está na prateleira da loja. A raquete da loja é feita para o público amador.

Você não tem a preparação física do Nadal. Você não tem a técnica do Federer. Usar a raquete deles (ou o que você pensa ser a raquete deles) não vai te dar o jogo deles. Vai te dar uma lesão. Você precisa escolher a raquete para o seu jogo, o seu físico, e o seu nível técnico.

O que sentir no fundo da quadra durante o teste

Quando você estiver no fundo da quadra testando, não se concentre em quantas bolas você acerta. Concentre-se no esforço. Com a raquete moderna (Pure Aero), a bola vai andar “de graça”? Você consegue profundidade sem fazer força? Você consegue fazer a bola pular alta com “spin”?

Agora pegue a “clássica moderna” (Blade). Você vai sentir que precisa fazer mais força para a bola andar. O seu swing precisa ser mais longo e completo. Em compensação, você sente para onde a bola está indo? Você consegue mudar a direção da bola com mais confiança? A bola está indo onde você mira?

Se você acerta tudo na rede com a Blade, talvez ela seja pesada ou flexível demais para seu swing atual. Se você acerta tudo no muro do fundo com a Pure Aero, ela é rígida e potente demais para o seu controle.

O que sentir na rede e no saque durante o teste

Depois do fundo, vá para a rede. Peça para alguém bater bola em você. Com a raquete moderna, como é o voleio? A bola “pula” muito? Você sente que não tem controle? Ela é manobrável?

Agora pegue a “clássica moderna”. O voleio parece mais sólido? Você consegue “amortecer” a bola e dar voleios curtos? Ela parece mais estável contra bolas fortes? Ela parece mais lenta para reagir (por causa do peso maior)?

Finalmente, saque. Onde está a potência? A raquete moderna (leve e rígida) vai te dar velocidade de saque fácil. A raquete “clássica moderna” (pesada) vai te dar um saque “pesado”, com mais massa, que quica mais. O que é mais importante para o seu jogo? Velocidade ou peso na bola?

Não há resposta certa. Há apenas a sua resposta.

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