Tecnologia: A evolução das raquetes de tênis nas últimas duas décadas

E aí, tudo pronto para o treino? Pega sua raquete aí. Sente o peso dela, a tecnologia. Parece normal hoje, certo? Mas deixa eu te contar uma coisa: se você pegasse essa mesma raquete e voltasse vinte anos no tempo, lá pelo começo dos anos 2000, você ia parecer um viajante do futuro. O pessoal ia achar que você estava com um equipamento de outro planeta. O jogo que você vê hoje na TV, essa velocidade absurda, esse spin que faz a bola pular lá no alambrado… nada disso seria possível sem a revolução silenciosa que aconteceu aqui, ó, no aro e nas cordas.

Eu lembro bem daquela época. O jogo era mais “clássico”. O Sampras tinha acabado de se aposentar, e a galera ainda usava muito a Pro Staff dele, que era pesada, cabeça pequena, exigia um swing longo e muito “timing”. Era um tênis de saque e voleio, de pontos rápidos. A mudança estava começando, claro. A Babolat já tinha soltado a Pure Drive, que era uma “arma” de potência, mas o jogo ainda estava se adaptando. O que vimos nas últimas duas décadas não foi só uma evolução, foi uma transformação completa.

Hoje, vamos deixar a quadra um pouco de lado e focar no equipamento. Quero que você entenda que a raquete não é só uma ferramenta; ela é uma parceira que dita como você pode ou não pode jogar. A tecnologia não só acompanhou o tênis, ela criou o tênis moderno. Cada grama a menos, cada material novo, cada mudança no padrão de cordas… tudo isso foi pensado para fazer a bola andar mais e girar mais. Vamos fazer uma viagem por essa evolução.

O Triunfo dos Materiais: Do Grafite ao Grafeno e Além

Quando falamos de raquetes modernas, tudo começa com o grafite. Nos últimos vinte anos, não abandonamos o grafite; nós o aperfeiçoamos. Pense no grafite como a farinha do bolo. No começo dos anos 2000, as raquetes eram “100% grafite”, o que era ótimo para dar rigidez e potência, muito melhor que a madeira ou o alumínio de antigamente. Mas o grafite puro, dependendo da trama, podia ser um pouco “seco”, transmitindo muita vibração para o braço.

O grande salto que você sentiu na mão nos últimos anos foi a mistura desse grafite com outras coisas. As marcas começaram a agir como chefs de cozinha, adicionando ingredientes especiais para mudar o “sabor” da batida. O objetivo era simples: manter a rigidez e a potência do grafite, mas melhorar a sensação, o conforto e a estabilidade. Queríamos raquetes que fossem firmes na hora do impacto, mas que não parecessem uma barra de ferro vibrando no seu cotovelo.

Essa busca levou a uma corrida tecnológica. A Wilson trouxe o Basalto (BLX), a Head experimentou com o D3O (que endurecia no impacto), e várias outras tentaram compósitos diferentes. A ideia era “filtrar” as vibrações ruins (aquelas que causam lesão) e deixar passar apenas as “vibrações boas” (aquelas que te dão o “feedback” de onde a bola bateu). Foi uma era de muita sigla e muito marketing, mas o resultado foi que as raquetes ficaram, de fato, mais complexas e mais confortáveis.

O Grafite como base de tudo

Vamos começar pelo básico. O grafite, ou fibra de carbono, é o que dá a “espinha dorsal” para 99% das raquetes de performance que você usa hoje. Por que ele? Porque ele tem uma relação incrível de rigidez-peso. Você consegue fazer um aro muito forte, que não se deforma (não “dobra”) na hora de bater na bola, sem que ele pese 500 gramas. Antes dele, tínhamos raquetes de madeira, que eram flexíveis e pesadas, e depois as de alumínio, que eram leves mas vibravam demais e eram muito “moles”.

O grafite permitiu que os engenheiros criassem raquetes “Stiff” (rígidas). E por que a rigidez importa? É simples: menos energia perdida. Quando você bate na bola com uma raquete rígida, quase toda a energia do seu golpe é transferida para a bola. A raquete não “absorve” o impacto; ela o repele. Isso é o que chamamos de “potência”. As raquetES dos anos 2000 já eram assim, mas ainda eram relativamente pesadas para manter essa rigidez sem quebrar.

O desafio das últimas duas décadas foi descobrir como usar menos grafite, ou usá-lo de forma mais inteligente, para deixar a raquete mais leve e rápida (mais aerodinâmica), sem perder essa rigidez essencial. Foi aí que as “tramas” de carbono começaram a ficar mais sofisticadas. Em vez de só empilhar camadas, as marcas começaram a trançar o grafite de formas diferentes em áreas diferentes da raquete (garganta, cabeça) para otimizar a estabilidade.

A revolução do Grafeno e do Têxtil (Graphene/Textreme)

Aqui foi onde o jogo mudou de patamar, lá por volta de 2013. A Head chegou com o Grafeno. A teoria era genial. O Grafeno é um material incrivelmente forte, mas absurdamente leve. A Head disse: “Vamos usar o Grafeno na garganta da raquete, onde não precisamos de tanto peso, e vamos pegar esse peso que economizamos e redistribuir”. Eles colocaram esse peso “extra” na cabeça (para mais potência e estabilidade) e no cabo (para mais equilíbrio). O resultado? Raquetes que pareciam leves na mão, mas batiam “pesado”, com muito “swingweight”.

Isso forçou todo mundo a correr atrás. A Prince, que andava meio sumida, voltou com o Textreme. O Textreme é outro tipo de trama de carbono, mais fina e reta, que também aumentava a estabilidade sem aumentar o peso. Você via isso muito nas raquetes da linha “Tour”. A ideia era a mesma: fazer o aro da raquete torcer menos no impacto, especialmente em batidas fora do centro.

Essa redistribuição de peso foi fundamental para o jogo moderno. Permitiu que jogadores gerassem mais velocidade de swing (porque a raquete parecia mais leve), mas ainda tivessem “massa” na ponta da raquete para esmagar a bola. O jogo ficou mais rápido instantaneamente. As raquetes ficaram mais estáveis, o “sweet spot” (ponto doce) parecia maior, e todo mundo começou a bater mais forte com mais confiança.

Materiais flexíveis: A busca pelo “feel” e conforto (ex: Countervail)

Só que tinha um problema. Raquetes super rígidas (para potência) feitas de Grafeno ou outras tramas fortes começaram a cobrar um preço: o braço. A vibração aumentou. O jogo ficou mais rápido, o spin aumentou, e a epidemia de “tennis elbow” (cotovelo de tenista) entre amadores disparou. O mercado percebeu que potência não era tudo. Precisávamos de potência com conforto.

Aí começou a segunda fase da revolução dos materiais: a busca pelo “feel” (sensação). A Wilson lançou o Countervail (CV). Esse era um material viscoelástico desenvolvido pela NASA, que eles misturavam no grafite. A promessa era que o CV “comia” a vibração ruim antes que ela chegasse ao seu braço, mas sem matar a sensação boa da batida. Foi um sucesso. A linha Blade com CV virou uma febre entre jogadores que queriam controle e sensação, mas sem dor.

Outras marcas seguiram. A Babolat integrou o “Cortex” (aquela pecinha na garganta) e depois evoluiu para o “C-Ply” e o “NF²-Tech” (usando linho!) para filtrar vibrações. A Yonex, que sempre foi famosa pela sua qualidade, aperfeiçoou o “VDM” (Vibration Dampening Mesh) no cabo. A busca não era mais só por rigidez, mas por “flexibilidade seletiva”. Queríamos que a raquete fosse rígida na hora de bater, mas macia na hora de sentir.

A Batalha do Spin: Como a Raquete Moldou o Topspin Moderno

Se você me perguntar qual foi a maior mudança no tênis nos últimos 20 anos, a resposta é uma só: o spin. E a raquete foi a principal culpada. O jogo de hoje é totalmente baseado em “topspin”. Não é mais aquele slice “chato” ou aquele golpe “chapado” (flat) que busca a linha. Hoje, o objetivo é bater forte, com margem (a bola passa alta na rede) e fazer ela “cair” dentro da quadra com violência, pulando no peito do adversário.

Isso mudou tudo. Mudou como os jogadores se movimentam, mudou a geometria da quadra, mudou a tática. E tudo começou com a ferramenta. As raquetes foram redesenhadas, não só para bater forte, mas para “raspar” a bola. O aro ficou mais “vivo”, e o jeito de acelerar o pulso (o “lag and snap”) virou a técnica dominante.

O equipamento e a técnica evoluíram juntos, numa simbiose perfeita. Um jogador queria bater com mais spin; a indústria dava a ele uma raquete que ajudava. Com essa raquete, ele descobria que podia bater ainda mais com spin. E o ciclo se repetia. O resultado é o forehand que vemos hoje, onde a bola parece estar sendo “escovada” para cima o tempo todo.

O “Efeito Nadal” e a aerodinâmica

Quando Rafael Nadal surgiu, ele não só mudou o jogo com seu físico e mentalidade; ele mudou com seu equipamento. Ele usava (e ainda usa) a Babolat Pure Aero (que na época se chamava AeroPro Drive). Aquela raquete amarela foi, talvez, a raquete mais importante das últimas duas décadas. Ela não foi a primeira raquete de spin, mas foi a primeira desenhada especificamente para o spin moderno.

O segredo dela? Aerodinâmica. Olhe para o aro dela. Ele não é quadrado ou ovalado como as raquetes clássicas. Ele é “alado”, desenhado como uma asa de avião. A Babolat chamou isso de “AeroModular”. A ideia era que esse formato cortasse o ar com menos resistência. Menos resistência significa que você, o jogador, consegue acelerar a cabeça da raquete mais rápido no swing. E velocidade da cabeça da raquete é o ingrediente número um para gerar spin.

O “Efeito Nadal” foi esse: todo mundo viu o que ele fazia com aquela raquete e quis igual. A AeroPro Drive democratizou o spin pesado. Você não precisava mais ter uma técnica perfeita e um braço de aço para fazer a bola girar. A raquete “ajudava” você a acelerar. De repente, jogadores amadores conseguiam dar “kick” no saque e peso na bola de direita de um jeito que nunca tinham conseguido antes.

Padrões de corda mais abertos (16×19 vs 18×20)

O segundo ingrediente para o spin é o padrão de cordas. Antigamente, muitas raquetes de “controle” (como a Pro Staff do Sampras) usavam um padrão “fechado”, como 18×20 (18 cordas na vertical, 20 na horizontal). Isso dá uma “cama” de cordas muito densa. É ótimo para controle, para sentir a bola “chapada”, mas é ruim para spin. As cordas não se mexem muito no impacto e não “agarram” a bola.

A revolução do spin veio com a popularização do padrão “aberto”, principalmente o 16×19. Com menos cordas, o espaço entre elas é maior. Quando você bate, as cordas verticais (as “main”) têm mais espaço para se moverem para o lado. Elas “beliscam” a bola. E, o mais importante, elas têm o efeito “snap-back”: elas se movem e depois voltam para o lugar com violência, ainda com a bola em contato. É como um estilingue jogando a bola para cima e para frente.

Marcas como a Wilson levaram isso ao extremo com a linha “Spin Effect” (S), que tinha padrões como 18×16 ou 16×15. Eram raquetes que geravam um spin absurdo, quase “ilegal”. O padrão 16×19 virou o padrão dominante no mercado, porque oferece o melhor equilíbrio: spin e potência do padrão aberto, mas sem perder totalmente o controle de um padrão 18×20.

A simbiose: A raquete e a corda de poliéster

Você não pode falar de spin nas raquetes sem falar da outra metade da equação: a corda. A maior revolução tecnológica no tênis, talvez maior que o grafite, foi a corda de poliéster (ou “co-poly”). Nos anos 90 e início dos 2000, usávamos tripa sintética ou multifilamento. Eram cordas macias, que davam potência, mas arrebentavam fácil e não geravam muito spin.

O poliéster mudou tudo. Guga Kuerten foi o pioneiro, usando a Luxilon Big Banger. O poliéster é uma corda dura, “morta” (não dá muita potência de graça) e, o principal, ela é lisa e escorregadia. Isso permite o “snap-back” que falei antes. A corda de poliéster, em um padrão 16×19, desliza uma sobre a outra no impacto e volta ao lugar como um elástico. É isso que gera o spin monstruoso do tênis moderno.

A raquete teve que se adaptar. Como a corda de poliéster é muito dura e tira potência, as raquetes ficaram mais rígidas e com cabeças maiores (como a Pure Drive) para devolver a potência que a corda tirava. Criamos a “dupla perfeita”: uma raquete rígida e aerodinâmica (para potência e velocidade) com uma corda dura de poliéster (para controle e spin). Essa é a receita do tênis dos últimos vinte anos.

O Dilema do Conforto: Mais Potência, Mais Risco?

Essa busca incessante por potência e spin teve um custo. Como professor, eu vi isso de perto na quadra. Alunos chegavam com a raquete nova do Nadal ou do Djokovic, colocavam a mesma corda de poliéster que eles usam, e uma semana depois estavam com dor no pulso, no cotovelo ou no ombro. O equipamento dos profissionais ficou rápido demais, rígido demais, para o braço de um amador.

O problema é que uma raquete muito rígida, combinada com uma corda de poliéster (que também é rígida e perde a tensão rápido), transfere uma quantidade enorme de choque para o braço. O tênis moderno é um esporte de impacto. E os engenheiros tiveram que voltar para a prancheta. Não adiantava vender uma “Ferrari” se o motorista não conseguia dirigir sem se machucar.

O foco das marcas, especialmente na última década, mudou de “potência pura” para “potência utilizável” ou “potência com conforto”. A maior inovação recente não foi sobre deixar a raquete mais forte, mas sobre deixá-la mais “limpa” no impacto, mais amigável ao braço. A saúde do jogador virou o centro do desenvolvimento.

O “Tennis Elbow” na era da rigidez

O “Tennis Elbow” (Epicondilite Lateral) sempre existiu, mas o que vimos foi uma explosão de casos. Por quê? Pense na física. Uma raquete rígida vibra em uma frequência mais alta. Ela não “absorve” o impacto, ela o reflete. Se você bate perfeitamente no “sweet spot” toda vez, ótimo. Mas se você, como a maioria de nós, bate um pouco fora do centro, essa raquete rígida torce violentamente e manda um “tranco” direto para os tendões do seu antebraço.

Agora, some isso à corda de poliéster. O “poli” é ótimo quando é novo, mas ele perde a tensão muito rápido. Depois de 10 ou 15 horas de jogo, ele vira um “fio de aço”. Continua durando (não arrebenta), mas perdeu toda a elasticidade. O jogador amador, que não quer gastar dinheiro trocando corda toda semana, joga com essa corda “morta” por meses. É a receita perfeita para a lesão: uma raquete rígida batendo com uma corda rígida.

As marcas perceberam que precisavam resolver isso. Elas precisavam de raquetes que ainda fossem potentes (porque é isso que vende), mas que tivessem algum sistema de amortecimento embutido. A rigidez deixou de ser a única métrica; o “RA” (o índice de rigidez) começou a ser balanceado com tecnologias de absorção.

Tecnologias de absorção de impacto (Cortex, FreeFlex)

Foi aí que vimos o surgimento de sistemas visíveis de amortecimento. A Babolat foi pioneira com o “Cortex”. Era aquela peça de plástico entre a garganta e a cabeça da raquete. A ideia era que essa peça, feita de um material diferente (PEBAX), filtraria as vibrações de alta frequência (as ruins, que causam lesão) e deixaria passar as de baixa frequência (as boas, que dão “feedback”). Funcionou? Em parte. Pelo menos, mudou a conversa.

Outras marcas criaram suas versões. A Wilson, mais recentemente, fez algo radical com a linha “Clash”. Eles usaram o “FreeFlex” (agora chamado “FortyFive”). Em vez de só adicionar um amortecedor, eles mudaram a forma como o grafite é trançado. Eles criaram uma raquete que é muito flexível lateralmente (para conforto e “feel”), mas ainda é rígida para frente (para potência e estabilidade). Foi uma quebra de paradigma.

A Head integrou o “Spiralfiber” e depois o “Auxetic” na construção. O Auxetic é um material inteligente que reage ao impacto. Quando você bate forte, ele se expande e fica mais firme, dando estabilidade. Quando você bate devagar, ele fica mais macio, dando sensação. A tecnologia deixou de ser um “remendo” (como um amortecedor) e passou a ser parte integral da estrutura do carbono.

O equilíbrio entre rigidez (potência) e flexibilidade (controle)

O que você está vendo agora, no mercado de 2024-2025, é o resultado dessa briga. O jogador moderno quer o impossível: a potência de uma Pure Drive (rígida), mas o conforto e o “feel” de uma Pro Staff antiga (flexível). As marcas estão tentando entregar exatamente isso. A rigidez (medida em RA) virou o número mais importante na ficha técnica, depois do peso.

Uma raquete “rígida” (RA acima de 68) te dá potência de graça. Você não precisa fazer um swing tão longo, a bola “pula” da raquete. Mas ela é menos confortável e você tem menos controle sobre a direção em golpes muito rápidos. Uma raquete “flexível” (RA abaixo de 63) é o oposto: puro conforto e controle. Você sente a bola “afundar” nas cordas (o “dwell time”), mas você tem que gerar toda a potência.

As raquetes mais populares hoje são as que vivem no meio-termo (RA 64-67) ou as que usam tecnologia (como a Clash, que tem um RA baixíssimo mas ainda gera potência) para “enganar” a física. A evolução das últimas duas décadas foi essa jornada: saímos da busca pela potência máxima e chegamos à busca pelo equilíbrio perfeito entre potência, spin e, acima de tudo, saúde para o braço.

O “Match Point” das Gigantes: As Linhas que Definiram a Era (Comparativo)

Nos últimos 20 anos, o mercado foi dominado por três gigantes: Babolat, Wilson e Head. Claro, Yonex, Prince, Dunlop/Srixon e Tecnifibre correm por fora e fazem raquetes excelentes (a Yonex, em especial, tem uma qualidade de fabricação absurda). Mas foram essas três que ditaram as tendências e travaram as grandes batalhas de marketing, usando os maiores jogadores do mundo.

Entender a filosofia dessas marcas ajuda você a se localizar. Cada uma tem suas “famílias” de raquetes, que evoluíram década após década. A Babolat se tornou a rainha da potência e do spin. A Wilson tentou equilibrar o legado clássico com a inovação moderna. E a Head focou na precisão, na velocidade e na tecnologia dos materiais.

Seu eu tivesse que resumir a quadra hoje, ela está dividida entre essas três filosofias. O jogador que quer “soltar o braço” sem medo vai para uma, o que quer “sentir” a bola vai para outra. E é fascinante ver como elas competem e se copiam, sempre tentando roubar o melhor da outra.

A Dinastia Babolat: Pure Drive e Pure Aero

A Babolat fez seu nome no século 21. Ela começou com as cordas e invadiu o mercado de raquetes com um plano simples: potência. A Pure Drive (a raquete azul) foi a primeira a definir o “tweener” moderno: cabeça de 100 polegadas, 300g de peso, rígida e potente. É a raquete “pau para toda obra”. Ela serve para o iniciante que quer ajuda para passar a bola da rede e serve para o profissional que quer uma base sólida de potência. É a raquete mais vendida da história por um motivo: ela é fácil de jogar.

A segunda arma foi a Pure Aero (a amarela do Nadal). Como já falamos, ela é a máquina de spin. É aerodinâmica, rígida e desenhada para acelerar. Enquanto a Pure Drive te dá potência “fácil”, a Pure Aero exige que você gere essa potência com um swing rápido e vertical (“limpador de para-brisa”). Ela é a definição do jogo moderno.

A terceira linha, a Pure Strike (branca/vermelha), foi a resposta da Babolat para quem achava as outras duas “duras” demais. Ela é a raquete de “controle” da marca. Mais flexível, mais “quadrada” no aro, focada em precisão e sensação, mas ainda com aquela “pegada” de potência da Babolat. É para o jogador que bate mais “flat” ou com menos spin, como o Dominic Thiem usava.

A Resposta da Wilson: Pro Staff vs. Blade vs. Clash

A Wilson tem o legado. Eles tinham o Sampras (Pro Staff) e o Federer. A Pro Staff é a linha clássica. É a raquete de “controle” puro. Tradicionalmente pesada (340g a do Federer), cabeça pequena (90-97 polegadas), fina e muito flexível. É uma raquete que não te dá nada de graça. Você tem que ter a técnica perfeita. Nas últimas décadas, ela foi se “modernizando”, ficando um pouco mais leve (a versão 97) e mais potente, mas a alma dela é a precisão cirúrgica.

Percebendo que nem todo mundo é o Federer, a Wilson criou a Blade. A Blade virou a raquete de controle “moderna”. Ela é mais flexível que as Babolats, mas mais fácil de jogar que a Pro Staff. É a raquete do “feel”. Ela é famosa por dar uma sensação de conexão incrível com a bola. Com a adição do Countervail e depois do FortyFive, ela se tornou a escolha de jogadores agressivos que querem sentir a bola, mas sem destruir o braço.

E a grande inovação recente foi a Clash. A Wilson viu o problema das lesões e criou a raquete mais flexível do mercado, mas que, por causa da engenharia (o “FreeFlex”), ainda gera potência e estabilidade de uma raquete rígida. É uma raquete “híbrida” estranha e maravilhosa. Ela é puro conforto. É a raquete perfeita para o amador que sofre com o cotovelo, mas ainda quer potência.

A Precisão da Head: Radical, Prestige e Speed

A Head sempre foi a marca dos “engenheiros”. Eles adoram siglas (Graphene, Auxetic, etc.) e focam muito na performance pura. A linha Radical (do Agassi) sempre foi a raquete de “controle” versátil. É a “faz-tudo” da Head. Não é a mais potente, nem a mais confortável, mas faz tudo bem. É para o jogador de quadra inteira, que bate de todo lugar.

A Prestige é o equivalente da Head à Pro Staff. É a linha clássica, de controle total, fina, pesada, exigente. É para o purista. É uma raquete que te recompensa pela técnica, mas te pune pelo erro. Nos últimos anos, ela também ficou um pouco mais “amigável”, mas ainda é uma raquete para jogadores avançados.

A grande estrela da Head na era moderna é a Speed (do Djokovic). Ela fica entre a Radical e a Prestige. Ela foi desenhada para o jogo rápido de hoje. É uma raquete de controle, mas com uma velocidade de swing absurda. É estável, precisa e rápida. Com a tecnologia Auxetic, ela ganhou muito em “feel” e conforto, tornando-se uma das raquetes mais completas do mercado.


Tabela Comparativa: As Três “Armas” de Spin da Nova Geração

Para você entender como elas competem, vamos comparar as três raquetes de “spin” mais famosas do mercado hoje.

CaracterísticaBabolat Pure Aero (2023)Wilson Shift 99Head Extreme MP (Auxetic)
Filosofia PrincipalPotência Aerodinâmica e Spin MáximoSpin Moderno com FlexibilidadePotência Bruta e Spin
Cabeça (sq. in.)10099100
Peso (sem corda)300g300g300g
Padrão de Cordas16×1916×20 (Foco em flexão lateral)16×19
Rigidez (RA) Aprox.~67 (Rígida)~68 (Rígida, mas flexível lateralmente)~66 (Rígida)
Perfil (Aro)Grosso e Aerodinâmico (AeroModular)Médio e inovador (foco em “bend”)Grosso e Arredondado
Para quem é?O jogador que quer o máximo de topspin e potência, jogando do fundo de quadra.O jogador moderno que quer spin, mas com mais “feel” e controle do que a Aero.O jogador que busca potência fácil e um “trampolim” de spin.

A Raquete Inteligente: A Próxima Fronteira (Adicionado)

Se você acha que a evolução parou nos materiais, prepare-se. A próxima grande virada, que começou na última década e está se aperfeiçoando agora, é a raquete “inteligente”. O que é isso? É a tecnologia da informação invadindo o aro. As raquetes estão deixando de ser apenas pedaços “burros” de grafite e estão se tornando aparelhos que coletam dados.

A ideia é simples: se o seu relógio pode medir seus passos e batimentos cardíacos, por que sua raquete não pode medir seu jogo? Estamos falando de trazer o “coach eletrônico” para dentro do equipamento. Isso muda como você treina, como você entende seus pontos fortes e fracos, e como você escolhe seu material.

Para nós, professores, isso é uma revolução. Eu não preciso mais achar que você está batendo 80% dos seus forehands fora do centro; a raquete pode me dizer exatamente onde você está batendo, com que velocidade de swing e com quanto de spin. É o fim do “achismo” no tênis.

Sensores integrados: O “Play” da Babolat

A Babolat, de novo, saiu na frente. Eles lançaram a “Babolat Play” há alguns anos. Era uma raquete Pure Drive normal, mas com sensores (acelerômetros e giroscópios) embutidos no cabo (no “butt cap”). Você jogava normalmente e, no final do treino, sincronizava a raquete com o seu celular via Bluetooth. O aplicativo te dava um relatório completo.

O relatório era impressionante. Ele dizia quantos golpes você deu (total, forehand, backhand, saque, smash), qual a sua porcentagem de spin vs. “flat” vs. slice em cada golpe, e, o mais legal, um “mapa de calor” da cabeça da raquete, mostrando onde você estava acertando a bola. Ele até media a potência (velocidade da cabeça da raquete) de cada batida.

Foi um choque para muitos jogadores. Muita gente que achava que batia com spin descobriu que batia “chapado”. Muita gente que achava que batia no “sweet spot” descobriu que batia 90% das bolas perto do aro. Foi um espelho da realidade para o tenista amador, e uma ferramenta de análise incrível para os profissionais.

Coleta de dados: Entendendo seu swing

A coleta de dados é a chave. Com esses sensores, você começa a criar um “DNA” do seu jogo. Você pode comparar seu treino de hoje com o de semana passada. “Eu estou sacando mais forte hoje? Meu backhand está com mais spin?”. Você pode ver como seu jogo muda quando você está cansado. Talvez no terceiro set, sua velocidade de swing caia 20%, e é por isso que suas bolas não passam da rede.

Para o jogador competitivo, isso é ouro. Você pode analisar um jogo-treino e ver por que perdeu. “Ah, meu adversário explorou meu backhand. Eu bati 100 backhands e só 30 forehands”. Ou “Eu saquei 30% no centro, 70% na ponta. Meu oponente percebeu e começou a se adiantar”.

Essa tecnologia também permite que você teste equipamentos de forma objetiva. Você está em dúvida entre duas raquetes? Jogue uma hora com cada uma e compare os dados. Qual delas te deu mais potência de verdade? Qual delas te fez acertar mais o “sweet spot”? Qual te deu mais spin? Os números não mentem.

O futuro da personalização em tempo real

E o futuro disso? A coleta de dados é só o começo. O próximo passo é a ação em tempo real. Imagine uma raquete que, durante o jogo, pode se ajustar. Isso ainda é ficção científica, mas não está longe. Imagine uma raquete que pode mudar sua rigidez. No saque, você aperta um botão e ela fica super rígida para potência máxima. Nos voleios, você aperta outro e ela fica super flexível para “sentir” a bola.

Ou, algo mais realista: imagine um sensor que vibra levemente no cabo toda vez que você bate fora do centro, te dando feedback instantâneo para corrigir. Ou um aplicativo que fala no seu relógio, entre os pontos: “Respire. Seu swing está ficando curto”.

A raquete inteligente vai transformar o equipamento de uma ferramenta passiva para um parceiro ativo no seu desenvolvimento. Ela vai te conhecer melhor do que você mesmo. E isso tudo começou com aquele primeiro chip no cabo da Babolat Play.

O Ajuste Fino (Customização): A Arma Secreta do Profissional (Adicionado)

Para fechar nossa conversa, quero falar sobre algo que os profissionais fazem há décadas, mas que só nos últimos 10 ou 15 anos começou a chegar ao jogador amador sério: a customização. Você acha que o Djokovic pega uma Head Speed na loja, coloca a corda e vai jogar um Grand Slam? Nem pensar. A raquete que você compra com o nome dele é só o ponto de partida.

A raquete do profissional é uma ferramenta de precisão absoluta, e ela é “customizada” (ou “tunada”) para se adequar perfeitamente ao jogo dele. Eles não se adaptam à raquete; a raquete é adaptada a eles. E essa tendência de “ajuste fino” é a última fronteira da evolução do equipamento.

Isso vai muito além de escolher a corda ou a tensão. Estamos falando de alterar as especificações básicas da raquete: o peso total, o equilíbrio (onde o peso está) e a inércia (o “swingweight”). É a diferença entre um carro de rua e um carro de Fórmula 1.

Além da loja: O que é “customizar”?

Customizar, no mundo do tênis, significa adicionar peso. Simples assim. Mas é onde você adiciona esse peso que muda tudo. Os customizadores profissionais (os “stringers” dos torneios) usam fitas de chumbo (lead tape) e silicone. Eles abrem o “butt cap” (a tampa do cabo) e injetam silicone para adicionar peso ao cabo, mudando o equilíbrio.

Depois, eles usam fitas de chumbo, que parecem adesivos metálicos, e as colocam em pontos estratégicos na cabeça da raquete. Se você quer mais potência e um “sweet spot” maior, você coloca chumbo às 3h e 9h (nas laterais da cabeça). Se você quer mais “massa” no golpe (mais “plow through”), você coloca às 12h (no topo).

O objetivo não é deixar a raquete pesada, é deixá-la estável. Uma raquete customizada vibra menos, torce menos no impacto e te dá mais potência “sólida”. O profissional precisa que a raquete aguente o “tranco” de uma bola vindo a 150 km/h sem balançar na mão dele.

Peso, equilíbrio e “swingweight”

Essas são as três variáveis que os customizadores manipulam. O Peso Estático (o que a balança diz) é o mais simples. Mais peso = mais estabilidade e potência, menos velocidade de swing.

O Equilíbrio (Balance) é onde o peso está concentrado. Uma raquete “Head Heavy” (HH – peso na cabeça) é boa para potência, mas cansa o braço. Uma “Head Light” (HL – peso no cabo) é ótima para manusear, boa para voleios e saques, mas tem menos potência em golpes de fundo. Os profissionais geralmente preferem raquetes bem “Head Light” para poder acelerar o pulso.

Mas o número mágico é o Swingweight (SW). Esse é o número difícil de medir, que diz quão “pesada” a raquete parece quando você faz o swing. É a inércia. Você pode ter duas raquetes com o mesmo peso, mas se uma tiver mais peso na cabeça, ela terá um “swingweight” maior. O jogo moderno de spin exige um SW alto, para que a raquete “carregue” o golpe e gere rotação.

A importância do “matching” (raquetes idênticas)

Aqui está o ponto principal para os profissionais: eles não têm uma raquete. Eles têm 10, 12 raquetes na bolsa. E o pesadelo de um jogador é trocar de raquete no meio do jogo (porque a corda arrebentou) e sentir a mínima diferença. Por isso, a customização também serve para o “matching”.

Um customizador pega 12 raquetes da fábrica (que sempre vêm com pequenas variações de peso e equilíbrio) e, meticulosamente, adiciona chumbo e silicone até que todas as 12 sejam exatamente idênticas. Elas precisam ter o mesmo peso, o mesmo equilíbrio e o mesmo “swingweight”, com precisão de gramas.

Nas últimas duas décadas, com a tecnologia de medição (máquinas de SW e equilíbrio) ficando mais barata, os jogadores amadores avançados começaram a fazer isso. Hoje, você não precisa mais ser o Federer para ter raquetes “casadas”. Você pode levar suas raquetes a um bom “stringer” e pedir para ele customizá-las. Esse nível de detalhe, essa busca pela ferramenta perfeita, é o que define o tênis de alta performance hoje. E tudo começou com a evolução dos materiais que permitiu essa “tela em branco” para a customização.

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